domingo, octubre 07, 2001

As Forças do Bem e as Forças do Mal

Nesse exato momento de nossa história (ou será histeria coletiva???), no Afeganistão, testemunhamos a luta entre as Forças do Bem e as Forças do Mal. Só não sei dizer quais são as Forças do Bem ou se um dia elas já chegaram a existir. Como nas Cruzadas, muito fanatismo e a sede de ganância do Lucro Infinito. Sugiro nomes à operação americana, pateticamente batizada de Liberdade Duradoura: Operação Hegemonia Infinita, Operação Lucro Fácil, Operação Bombardear Mendigos Liderados Por Milionário Usado Pelos Americanos Para Afastar Os Russos Durante A Guerra Fria, Operação Alle Massacré Les Afegains, Operação Pede Para Cagar E Sai Andando e por fim, Operação Solução Final.
Quinta-feira, l2 de Maio de 1994.

Na verdade, nenhum dos telefonemas que dei na noite anterior adiantou. Ninguém em casa. Só agora de manhã, consigo localizar o Dr. Romeu. Repassei com ele prática antiga de auto-indução que estudamos juntos durante algum tempo e que permitia extrair, através da concentração mental, uma pós-imagem gravada na retina de terceiros. Perguntei se a técnica se prestava também depois da morte da pessoa e ouvi um grito do outro lado da linha.
“Com o que você está tentando se divertir, Stella?”
Tentativa de sermão que me lembrou Paulo, na noite passada. Falei que não podia perder tempo e ele confirmou que sim, mas que nesse caso não se podia perder muito tempo, por conta da degeneração rápida do globo ocular. Ele ia continuar o questionário sobre os meus motivos, mas não lhe dei tempo, desculpei-me e desliguei o telefone. Liguei para Nelson Ataian, um armênio amigo meu, advogado criminal há muitos anos em exercício da atividade. Perguntei se sabia dos tais assassinatos do Horto. Ele disse que sim. Em meia-hora de conversa cuidadosa, consegui convencê-lo a tentar me franquear o acesso ao material das investigações. Eu o encontrei na escadaria do Fórum e lhe contei o caso do espancamento. Mostrei-lhe o material que eu tinha recolhido do lado da bicicleta caída e que eu tinha lacrado num saco plástico e lhe pedi que me conseguisse uma perícia nele. Ele saiu por um instante até o laboratório e ao voltar, disse que não levaria mais que dez minutos, já que tinha pedido urgência na análise. Eu o agradeci por tudo o que vinha fazendo.
- Precisa mesmo ver o corpo, Stella? Pelas informações que eu tenho, vale mais a pena ir em jejum.
Assegurei-lhe que precisava e ele se ofereceu para ir co-migo até o IML. Quando chegamos, me indicou como procurando um parente desaparecido, não cheguei a ouvir a desculpa que deu. O funcionário nos olhou enviesado e pediu que esperássemos ali. O lugar estava movimentado, ruídos incessantes de máquinas de escrever, telex, corredores iluminados por compridíssimas lâmpadas fluorescentes, macas com pessoas completamente cobertas passando dessa vida para outra, de um setor do necrotério para o outro. Astral que me deixa abalada, embora eu não possa escolher, quase sempre, os lugares aonde passo minhas tardes. A porta do necrotério voltou a se abrir, desta vez era o legista. Fiquei nervosa, porque ele parecia desconfiado de alguma coisa.
- A senhora é parente do morto? Não parece muito com ele, a senhora sabe?
- Só vim ver se é quem estou procurando. Só isso.
- Espero que não tenha almoçado ainda. Se tiver, é a segunda à esquerda, caso precise vomitar. Venham comigo.
Ele deu o número ao funcionário, mandou que ele puxasse a gaveta. Instintivamente, eu levei a mão à boca. Era ele. O homem caído na rua, em estado muito mais lamentável do que eu jamais poderia supor. A impressão de já tê-lo visto voltou, mais forte e agora mais desagradável do que nunca. Nervosa pela impressão horripilante que tomava conta de mim, sabendo que teria pouco tempo antes que fechassem a gaveta para sempre, eu me curvei sobre o corpo, mirando fixamente os olhos deixados abertos pelo trauma e iniciei a prática. Quando a minha vista iniciou o processo característico de escurecimento, o pânico me dominou. Eu agora podia ver, clara como cristal, a imagem da última pessoa que ele tinha visto em vida: um jovem com os cabelos como o do Pintor, os olhos como os do Pintor, um rosto que era parecido com o dele.
Mas que não era o Pintor.
Nelson teve de me segurar, quando a prática terminou. O legista perguntava se eu sofria de miopia para ter de me curvar tanto assim para reconhecer o corpo. Nelson não conseguia entender minha agitação, mas parecia saber que eu tinha encontrado o que eu queria. No hall, mais calma, eu disse a ele que era uma longa história que eu teria mais calma para contar no futuro. Acrescentei que eu iria precisar de todo o material referente à investigação e o resultado da perícia nas fibras que eu tinha recolhido. Meu amigo concordou, mas insistiu em saber o que eu tinha visto de tão impressionante nos olhos do morto.
- Um conhecido meu.
Ele ficou na mesma, mas marcou sessão comigo na semana seguinte, a fim de analisarmos juntos o material.


Segunda-feira, 16 de Maio de 1994.

Em seu escritório, Nelson colocou as pastas na minha frente, dizendo que a Promotoria o tinha metralhado com perguntas antes de deixar que ele tirasse cópias xerox dele. Inventou que eu era pesquisadora e que investigava os efeitos da decomposição em tecidos vivos e outros materiais, com a habilidade que só mesmo um advogado tem.
- O rapaz que você viu na rua e no necrotério é esse. A perícia viu que o pescoço dele foi quebrado. Foi pendurado pelo pescoço, sabe Deus como, com... você não vai acreditar. Arame farpado, Stella! Stella? Você está pálida!
- Isso passa. Continue.
A impressão de que eu conhecia aquele homem morto se somou à última declaração dele, para me deixar ainda mais nervosa.
- Em todos os casos o Código Internacional de Doenças aponta para o código 1966.9/0, É usado para casos de ataque com objetos pontiagudos e perfurantes. De todos os sete, o único sem antecedentes criminais era este último. Em todos os casos, o coração foi arrancado do corpo e levado embora; nenhum foi encontrado, nem junto ao corpo, nem nas imediações. O sexto homem teve morte rápida. Empalaram o quinto, provavelmente ainda vivo; ele teve um cabo de vassoura, ou coisa parecida, empurrado através do tubo digestivo. Está dentro do corpo até agora e não será retirado. Quer que eu continue?
- Por favor.
- O quarto elemento foi pendurado por um dos pés com o arame farpado também. Pela distribuição dos furos na cabeça, ouvidos, ombros e costas, dá para imaginar o que devia ter embaixo dele esperando ele cair. O terceiro, do mesmo modo, coberto de furos, semi-despedaçado. Além do coração, foram arrancados também os olhos dele. Quem quer que seja o autor, é realmente selvagem. No segundo morto, somente os tendões ainda seguravam as pernas. E o primeiro da série...
- ...o primeiro...?
- Foi estrangulado à mão e foi perfurado com objetos pontiagudos. Não se pôde precisar em que ordem essas coisas aconteceram.
- Tirando o sétimo, quais os antecedentes dos outros?
- O de sempre, estupro, homicídio, cobrança de pedágio à noite em pontilhões de acesso aos bairros distantes, você sabe, tudo aquilo que faz um homem ser benquisto pela sua comunidade. Quando a comunidade vê que a Justiça não faz justiça, vão eles mesmos em mutirão.
- Sobre o primeiro morto, dá para levantar uma relação dos processos por assassinato que ele já respondeu?
- Não é difícil.
Eu o segui até a sala do computador. Parecia ter um trânsito bem livre pelo lugar, ainda mais uma delegacia de registros criminais, do tipo que leva meia-hora para chegar aonde quer, por ter de cumprimentar todos na passagem. A atendente sorriu ao ver Nelson e de fato, não foi difícil conseguir dela uma lista. Procuramos em Homicídios. Nada. Mas eu tinha certeza de poder encontrar algo. Fiquei confusa. Sem saber o que dizer. As certezas que eu tinha agora não eram mais que apenas suspeitas novamente. Quando eu já pensava em desistir e ir para casa relaxar, me iluminei: não foi só assassinato.
- Dá para tirar uma ficha dele sobre latrocínio?
- Você acha que isso vai adiantar, Stella?
- A gente morre tentando. Não quero sair daqui com as mesmas suspeitas que eu tinha antes de vir. Agora eu quero certezas, só certezas. Ou isso ou eu não aponto o dedo no nariz de mais ninguém.
Nelson deu um suspiro puxado. Pediu a listagem. Essa demorou muito mais que a outra. A atendente agora atendia os seus superiores, pediu que voltássemos mais tarde. Quinze minutos que pareceram quinze anos. A lista veio, enfim. Eu não pude conter o meu choque, embora já estivesse de certo modo preparada para ele. Entre os inúmeros processos entre homicídios e roubos, assaltos, etc., lá estava: processo de latrocínio contra o comerciante vicentino... Jorge Luís Aita. Nelson me olhava, na expectativa.
- Então...? Encontrou o que estava procurando?
- Encontrei. Não que eu quisesse, mas eu já esperava.
- Você sabe, não é, Stella, quem são os autores dos crimes? Não tem outro motivo para estar desse jeito. Por que não conta tudo o que sabe à Polícia? Tira essa responsabilidade de cima de você mesma, você não tem que carregar tudo nas costas, não.
- Segredo de análise é como segredo de advogado. Você sai por aí contando coisas de seus clientes?
Ele me olhou sério, mas acabou concordando.
- O que você está pensando em fazer?
- Não sei. Ainda não sei - eu o observava enquanto mexia num dos bolsos, mergulhando a mão em busca de algo.
- Antes que eu me esqueça e não te veja mais, esse laudo é da análise do material fibroso que você encontrou no meio da rua, ao lado daquele homem. Isso não é exatamente fibra de madeira, é de...
- Bambu?
- Como é que sabe? - ele ainda ficava espantado.
- Isso deu para ver nos olhos do morto.


Terça-feira, 17 de Maio de 1994.

Acordei sozinha no meio de um pesadelo. Pendurada numa forca feita completamente em arame farpado. No chão, feito do material de sonho, eu conseguia distinguir vagamente a roda livre de uma bicicleta, girando com aquele ruído característico. O tambor onipresente, marcando o compasso de valsa, de um ouvido para o outro. Pensei apavorada em abrir mais as janelas, me libertar da penumbra, esquecer a noite que passou, mas mal tenho forças para me levantar da cama. Fiquei dez minutos para me levantar. Agora vejo que fui mais enredada por Fernando do que gostaria de admitir. É como uma doença, originada a partir de algo que ele fez. Consciente. Consciente? Isso é consciência?
Um grito, através do prédio. Parece que vem lá do Lopes. Sim, ele gritando. Me vesti com alguma dificuldade ainda, imagino o porquê do tal grito. É o sonho, o tal que não é vários, é um só. Me bate que eu preciso saber que tem o Lopes a ver com todos eles e principalmente com Fernando. Preciso sondar, descobrir. Se ele é afetado pela tal onda de sonhos como nós, tem alguma coisa a ver com isso. Em que grau? E eu? Que envolvimento tenho?
Não vou ao Lopes. Resolvi não ir. Não me meter. Se Júlia precisar de ajuda, ela me dirá. Talvez desça, para conversar a respeito. Talvez sozinha, conseguisse saber com o que ele sonhava. E este pesadelo que tive me deu de cara a certeza de que não é apenas um caso de sonhos em progressão, que existe uma realidade medonha por trás disto, que os pesadelos só conseguem refletir de maneira pálida.
Júlia não tardou, veio para um segundo café da manhã. Entrou assustada, perguntou se eu tinha ouvido Lopes gri-tar. Neguei, disse ter acabado de acordar. Perguntei logo em seguida, se ele já tinha ido trabalhar. Ela confirmou. Falou de torturas com arame e bambu, coisa já velha, que eu só confirmei por desencargo de consciência, falou em barulho de samba, tambor, eu perguntei por valsa e ela disse que não sabia se era valsa, mas que era um tambor, de um lado para o outro. Falou das olheiras, que mais faziam seu marido parecer um fantasma, olheiras de noites sem dormir por causa dos tais pesadelos. Escondi o fato de que eu também já compartilhava do problema. Eu disse que ela devia tentar fazê-lo relaxar, que a tensão só poderia ajudar a piorar o estado dele. Ela se foi, entre aliviada e desanimada, agradecendo a atenção e o café.
Recordo dela ter referido o início do sonho dele quinze dias atrás e fui atrás do meu diário. Corri o dedo pelo diário até uma terça-feira, dia 26 de abril, em que Lopes me mostrava os laudos do quinto e do sexto corpo. Os problemas dele começaram a partir da sexta morte, os meus a partir da sétima. Como num sonho, em que Fernando me diz não saber como sabe, apenas sabe. Conhecimento que eu não baseio mais no racional, porque não me parece dentro do domínio do racional o que eu tenho por aqui. É conhecimento que vem direto, da visão, da experiência direta. E que me diz que o tempo está correndo, que é óbvio que não estou mais do confortável outro lado da mesa. E que eu iria enlouquecer, se ficasse ali parada, remoendo tudo aquilo, sem tomar atitude. Tomei um banho quente, a ver se relaxava. Tenho andado uma pilha de nervos. O banho não funcionou, mas também não me deixou mais nervosa do que antes.
Quando cheguei à mecânica, Fernando trabalhava no motor de um Logus estacionado displicentemente sob a garagem. Sorriu ao me ver, mas quando notou a minha expressão, foi logo desmanchando o sorriso. Veio com um cumprimento inocente:
- Oi, D. Stella. Aconteceu alguma coisa?
Eu não tinha ido até para conversar sobre o tempo.
- Algumas coisas. E tudo você mesmo pode explicar, começando por exemplo, por aquela cerca de bambu. Você não acha que seria um ótimo começo?
Ele franziu a testa.
- Mas... A senhora ainda não viu o que tinha que ver na minha cerca?
- Não, Fernando. E você sabe que não. Eu lhe disse que havia cinco taquaras com letras diferentes M-E-T-R-O, e você desconversou de maneira inteligente e engraçada. Depois, quando você ficou me espreitando por trás do capô do carro que você estava consertando. Que nem estava consertando, porque eu sabia que você estava mesmo atrás de mim o tempo todo. Por essas e outras, você sabe, tão bem quanto eu que eu ainda não vi o que tinha de ver nessa maldita cerca.
Rodrigo aproximou-se e perguntou ao irmão se algo estava indo errado. Fernando espantou-o, apontando para mim e para si mesmo. Veio comigo até a cerca, mas ficou a dois passos dela. Observei a seqüência das letras. Tinha mudado e por displicência pura. Pedi que ele viesse mais perto e quando ele fez isso, puxei inesperadamente as taquaras com as letras para cima. Elas vieram facilmente, como eu imaginava. Fernando ficou pálido. Puxei a chave de fenda que ele carregava na cintura e raspei a ponta das taquaras, para tirar a camada grossa de terra. O mecânico me olhava desolado, se ele tinha alguma dúvida a respeito de eu saber ou não da origem de seus pesadelos, ele tinha dissipado todas as dúvidas ali. Nas pontas, ficou uma tonalidade de vermelho-escuro que devia antes ter sido mais vivo, brilhante, mudando com o contato da terra.
- O que você misturou com terra na ponta desses bambus? Ou você misturou foi a terra, ao fincar os bambus de volta, com o que já estava na ponta deles? Por que pinta as taquaras de vermelho no ponto aonde espetam no chão? É sinalização para minhocas?
Fernando respirava fundo, tentando tomar fôlego. Ia começar sua defesa, mas não lhe dei tempo.
- Telefona para os outros, Fernando. Avisa que assim que você se livrar da graxa, você vai passar na casa de cada um para pegar e levar para o Centro de Hipnose. Espero vocês até às sete, sete e dez, no máximo.
Ele esboçou um sorriso.
- Hoje não vai dar. Nós cinco temos uma reunião na... no Clube dos Caçadores.
- Ótimo. Então avisa que vocês vão ler as atas das reuniões passadas e discutir a de hoje na minha sala. Sem timidez, porque eu já sei de boa parte do que aconteceu. E o que eu sei pode ficar entre nós, se vocês colaborarem. Ou eu posso ir até a Polícia, dizer que por um acaso eu sei quem são os responsáveis pelos assassinatos no Votoruá.
Eu estava blefando. Se colar, colou. Nada de provas materiais, apenas coisas circunstanciais, que jamais os colocariam à disposição da Justiça, até porque bandidos não fazem falta. Mas eu não tinha muitas cartas disponíveis na manga. Mas eu tinha de fazer alguma coisa.

Sete horas. Ergui os olhos do meu relógio e encarei a penumbra de minha sala. A recepcionista apareceu na porta, silhueta recortada contra o feixe de luz que invade a minha penumbra, vindo das fluorescentes do corredor. Perguntou se podia fazer os meninos entrar. Coloquei uma fita virgem no gravador, disse que eles podiam entrar e dispensei a recepcionista. Ela os chamou e eles entraram em silêncio. Meu consultório agora parecia uma vitrine da Nike, com todos aqueles tênis gigantescos e fluorescentes.
Eu tinha disposto seis almofadas em círculo no chão e apontei para elas. Eles se sentaram e ficaram me olhando, curiosos, esperando uma atitude minha, o mesmo que eu esperava deles. Sentei, tomando um grande alento, pois sabia que iria precisar, só não fazia idéia de quanto. Puxei o gravador para o centro da roda. O Mestre tomou a iniciativa de falar, expressando a pergunta dos cinco.
- Gravar não estava nos nossos planos, D. Stella.
- A fita é para uso particular meu. Não vai sair da minha casa. Eu quero analisar esses depoimentos de perto.
Eles pediram que eu saísse, conversaram entre si e, quando voltei, tinham se decidido a gravar. O Mestre novamente entrou no assunto, pelos cinco.
- Que pode lhe interessar uma reunião do Clube?
- Muito. Pode me interessar muito.
- A senhora também gosta de caça? - e era João Paulo quem falava agora.
- Me interesso. Vocês têm ata nesse Clube?
Felipe tentou começar:
- Tem um livro... - o Mestre olhou sombrio para Felipe e o interrompeu, dizendo: - Nós cinco temos memória e palavra. Não é preciso escrever nada, D. Stella.
- Sei. Usam tudo o que há de mais moderno no mercado, mas na hora de anotar pautas de reunião, é tudo na base da tradição oral?
- Mas não tem nada tão sério assim - explicou Marinho.
- Brincadeira é que não é. Se fosse, eu mostrava o caminho do playground lá fora. Mas nós hoje viemos aqui falar sério. Você, Felipe, por exemplo, pode me dizer se quando o Clube foi criado os bichos ainda tinham prioridade ou se vocês já se dedicavam a caçar animais mais complexos e organizados?
Senti a temperatura da sala subir. Bastante. Os meninos começaram a se entreolhar, procurando força uns nos outros. Achei notável aquele senso de união, a única coisa positiva que já vi neles. Tem irmão biológico por aí que jamais irá conhecer tamanho senso de união.
- A senhora acha que tem diferença entre... - Felipe mordia os lábios, olhava nervoso para o Mestre. Este o encarou e sorriu como líder, paternalmente.
- Pode desentalar agora, Felipe. Não precisa mais esconder, foi ela mesma, de tarde, lá na oficina, quem marcou a reunião. Ela já sabe de tudo.
Felipe se voltou para mim, os olhos brilhando.
- Então...? Pra senhora faz diferença um animal ou um animal desses que mata, estupra, rouba, deixa aleijado? Só se for porque os animais são melhores!
- É isso aí, Felipe. Assim que se faz. Não deixa montar.
João Paulo e os outros apertaram a mão de Felipe. Me olharam, me desafiando. Agora quem falava era o Mestre:
- O Clube é isso mesmo que a senhora está pensando. É para caçar e matar animais selvagens que falam, matam, e estupram. A senhora é boa detetive.
- Se algum assassino vale mais que o próprio crime... (4) - eu realmente não sabia como começar. Ia ser um sermão?
- Não tem crime nenhum em querer se defender.
- Quem está falando em defesa? Estamos falando de sete assassinatos planejados em requintes e um ritual que não descobri ainda a que veio.
Silêncio mortal. Disse que ia ligar o gravador, e que eles contariam como mataram os homens. Que desde que eles tinham atendido ao meu apelo de comparecer, a conversa e as fitas não sairiam do nosso círculo. O Mestre foi quem começou a falar. Tinha o ar sombrio, mas estranhamente satisfeito, como se contasse de um peixe que pescou.
- Fiquei um mês estudando os hábitos dele. A que horas saía, voltava do trabalho, lugares em que costumava ir e em que horários. O clube já existia como turma de colégio, não foi difícil formar a sociedade, já que a gente sempre foi igual em quase tudo, mesmo bairro, quase a mesma idade, e até os mesmos problemas com os vagabundos.
- Uma sociedade secreta. Como os Mau-Mau.
- A senhora conhece os Mau-Mau? Aqueles do Quênia?
- Conta a história, Fernando.
- Era difícil ficar perto dele, que tinha matado meu pai, mas eu tive paciência. Esperei. Um dia, mandei os quatro para o Horto. Disse que a gente ia começar a agir. Dei um bambu daqueles para cada um e segurei o meu. O comédia estava chegando, vindo do trabalho àquela hora. Dei um jeito de passar do lado e enfiei o bambu bem no meio do rabo dele. O sangue dele subiu. Tentou me dar uma porrada, tirei o corpo, saí correndo, dando sempre uma distância certa para ele saber sempre aonde eu estava indo. Na subida da pedreira, ele achou que tinha me encurralado. Gritou que ia arrancar a minha cabeça. Quando nós passamos pelo ponto onde os outros estavam escondidos, eu fiz sinal. Marinho e João Paulo saíram de trás de uma árvore e meteram cada um o seu bambu no saco dele. Foi só sangue para todo lado. O desgraçado gritou de dor e enquanto Felipe metia o pé no peito dele contra a árvore, eu e Fernando amarramos o bicho nela com arame farpado. Fizemos um garrote bem forte. Ele gritando, o tempo todo, como um porco que a gente sangra. Eu disse que era pra ele gritar à vontade, que ninguém ia mesmo ouvir. Que a gente ia judiar bastante dele antes de presuntar o danado. Nós acendemos um charuto que passou de mão em mão. Não deu cinco minutos e ele estava coberto de queimaduras de charuto por todo o corpo. Ele se mexia na base do tranco e, com cada um que ele dava, se rasgava mais ainda no garrote de arame. Eu gritava alucinado vendo aquilo e isso porque eu ainda não acreditava que ele era nosso finalmente, que a gente podia fazer com ele o que a gente quisesse. Quando eu vi ele se contorcer de dor, o sangue escorrendo dos rasgos que o animal mesmo abria torcendo o corpo no arame, eu fiquei louco. Larguei a lança de bambu, fui para trás da árvore, catei o desgraçado pelo pescoço e puxei para trás com toda a força, pra detonar tudo. Eu gritei pra ele que eu ia fazer o mesmo que ele tinha feito com meu pai. Felipe chutava com força o que tinha sobrado do saco dele, João Paulo ainda queimava o corpo dele com o charuto, depois todos pegaram as lanças e começaram a espetar. Eu sentia o sangue quente espirrando na minha lata. Só larguei o pescoço dele quando eu senti quebrar, mas o ódio não passava de jeito nenhum. Ainda ficamos uns dez minutos chutando o presuntão, até ficar cansado demais para continuar. Desamarramos e o comédia caiu que nem um monte de merda, aliás ele sempre foi um monte de merda mesmo. Por que negar?
O Mestre riu e os outros riram em coro. A risada não era forçada, para posicionar com mais ênfase um ponto vista, comum aos quatro, nada era ensaiado, tudo era desgraçadamente espontâneo e natural. Era como se fossem a mesma pessoa, pensamento que invadiu minha mente, em forma de escuridão. Quando a sombra se foi, esperei que o Mestre continuasse a falar, mas nesse momento foi Marinho quem tomou a palavra.
- Foi o mesmo esquema do Mestre. Quando nós passamos pela árvore, o Fernando e o Mestre fincaram os bambus nas pernas dele por trás. Quando ele caiu, eu comecei a chutar a cara dele por todas as meninas lá do bairro que eu conhecia e que eu sabia que ele tinha estuprado. Comecei a dizer o nome delas todas e cada nome era um chute que eu dava. Os quatro iam repetindo os nomes e enterrando o bambu no corpo do comédia, gritando. Eu tava com o sangue fervendo, mas mesmo assim eu me assustei com o som que a resposta das vozes todas juntas dava.
- Como era o som que assustou você, Marinho?
Ele ficou em silêncio; baixou os olhos, quando eu insisti em saber como era o som. No mesmo instante, Felipe começou a falar, como que para salvar pelo gongo. Senso de timing altamente profissional, corporativo, protetor.
- Quando esse comédia já tava amarrado na árvore com o arame, ele começou a chorar porque a gente só dava de socão na lata feia dele. Marinho ia queimando os pés dele com um isqueiro e a gente começou a ficar nervoso vendo o arame rasgando a carcaça dele inteirinha, quando ele pulava para fugir do fogo. O corpo era só rasgão de farpa que não acabava mais. Mas o que a gente fica louco mesmo é de ver o sangue. Quando você vê o cara que você mais odeia assim, isso enlouquece o teu sangue. Ele começou a implorar para a gente não matar ele, eu gritei que era para ele implorar de novo, que eu estava gostando de ouvir, ele implorou de novo e outra vez e outra vez. Foi animal. Eu dei um tranco no Fernando, tirei o bambu das mãos dele e enterrei o meu e o dele nos olhos do infeliz. A senhora já viu alguém chorando sangue, D. Stella?
Suor frio. Minha pressão está descendo com cores vivas demais. Não há medo, não sei porque não há medo, mas também não sei se minha pressão agüenta. Enjôo me invade.
- Já viu? - O pequeno filho da puta queria mesmo a resposta. Ao ver que eu não iria mesmo responder continuou: - Fernando reclamou que eu estava sendo fominha...
- E estava mesmo. Só porque era teu? - este perguntou.
- ...arrancou de volta o bambu e o comédia levou espetada de bambu até morrer. Ainda dá para ouvir a gritaria que ele fez depois que eu arranquei os olhos dele.
João Paulo pediu a palavra, eu disse que era dele.
- (...) A gente cavou uns buracos e enfiou os bambus no chão com a ponta afiada para cima. O bicho foi pendurado na árvore por um dos pés com o arame que a gente amarrou numa corda. Passamos a corda por um galho grosso e amarramos a ponta numa raiz. Amarramos os dois pulsos dele no tronco. Enchemos de soco, pontapé e pedrada. Deu bem uma meia-hora de porrada. Quando a gente acabou de bater, ele sangrava pelo nariz, testa, boca, supercílio, tudo. Ele gemia bem fraquinho, quase sem força, mas começou a gemer mais alto quando viu os outros sentando em torno da raiz e acendendo uma vela debaixo da corda que suspendia o corpo dele. Eu sentei e comecei a cantar uma música que eu tinha aprendido com a minha professora de piano. Depois, os outros começaram a me acompanhar. O comédia, lá pendurado, começou a chorar. Porque ele sabia o que ia acontecer quando a corda tivesse queimado até arrebentar. Quando isso aconteceu, nós olhamos para ele. O infeliz caiu com tudo em cima das pontas que nós tínhamos deixado para cima. Não erramos uma que fosse, todas entraram. O pulso dele, amarrado na árvore ficou só no osso quando ele caiu e girou, cortando tudo. Depois, a gente voltou a cantar, enquanto saía dali para o caminho do Boi Morto.
- Que música estavam cantando quando se sentaram?
João Paulo olhou para o Mestre em busca de aprovação e força e conseguiu os dois. O Mestre lhe deu o sim.
- A Dança das Horas.
Olhei instintivamente para o Mestre. Por um momento, a idéia de ver os cinco sentados em volta de uma raiz, cantando uma música tão delicada como aquela me pareceu tão incrivelmente absurda que eu não pude conter um acesso de riso, difícil de controlar. A repercussão do riso foi intensamente negativa. O Mestre chegou a fazer menção de se levantar e sair. Mas parou e me fuzilou com os olhos.
- Tem alguém aqui contando piadas? - ele me perguntou, com o olhar agressivo e o tom mais ainda.
Resolvi bancar mais uma crise nervosa dele.
- Acho que sim. Vocês jogam um homem em cima de bambu afiado, cortam as mãos dele com arame farpado, sentam para cantar A Dança das Horas e ainda querem que eu chore? Seria cômico, se não fosse trágico.
- Mais uma risada e vamos embora.
- Não era você que não fazia nada pela metade?
O Mestre pareceu aquietar-se. Talvez por não encontrar resposta imediata. Minha pressão continuava a descer, apesar do meu ataque de riso, talvez por causa dele, consumindo energia que eu não tinha. Perguntei a ele se sabia que a música que estavam cantando tinha um compasso parecido com o de valsa e, é claro, não sabia. Perguntou o que era compasso e valsa.
- Aquele negócio de festa de quinze anos?
Meus olhos começavam a acumular bolinhas de todas as cores que giravam, pipocando, aparecendo e desaparecendo no meu campo de visão. Sabia o que era isso, sabia onde me levaria, porque eu já tinha passado por isso antes. Dentro do torpor, percebo que Fernando começa a falar sobre o quinto homem. Estou desabando. Minhas forças estão zerando, tenho formigamento que não pára, por todo o corpo.
- ...eu tinha encontrado um cabo de vassoura pelo caminho e levei ele comigo porque achei que ia precisar. Enfiei ele no cu do otário, desculpe o palavrão, ele não parava de gritar, enterrei tudinho pela calça rasgada dele e ele se sacudia amarrado na árvore


Ouço um clique que chama minha atenção. Meus olhos se abrem como duas persianas, revelando a sala vazia, na mesma penumbra de antes. Estou deitada sobre as almofadas que separei para os meninos, sozinha, não sei como cheguei àquela posição. O clique que me trouxe de volta é o do gravador, deixado girando, gravando o vazio, o ruído de fundo ambiente. Eles me ajeitaram sobre as almofadas, deixaram um bilhete sobre a minha barriga; o bilhete dizia que eles entendiam eu ter ficado chocada e que gravaram o resto dos depoimentos enquanto eu estava inconsciente e ai de mim se ousasse levar a fita para a polícia. Olhei o relógio. Uma hora fora do ar. Como na primeira experiência de hipnose com Fernando. Eu estou sozinha.

Ouço um clique em volta. Depois, é só silêncio. Meus olhos vão se abrindo como persianas, revelando a sala vazia, mergulhada em silêncio e na mesma penumbra de antes. O clique é o do gravador, deixado girando ao acaso, gravando o vazio, ruído de fundo ambiente dos rumores de carros lá fora, a noite que mal começou. Estou deitada sobre as almofadas que separei para eles, com um bilhete sobre a minha barriga, bilhete que fico observando subir e descer ao sabor da minha respiração. Eles devem ter me colocado sobre as almofadas. No bilhete, diziam ter gravado o resto dos depoimentos sem mim, já que eu estava inconsciente e ai de mim se eu resolvesse levar a fita à Polícia. A essas horas, já devem todos estar em casa há muito tempo. Percebo que isso já aconteceu comigo, é a segunda vez que desperto!
Sozinha em casa, ouço a fita. Realmente, a partir do ponto aonde tive a síncope, eles gravaram os depoimentos a respeito das duas outras mortes que me intrigam agora mais que todas as outras. Porque das outras eu tenho os motivos, sei porque o fizeram, cada um tinha suas diferenças particulares. Mas os dois últimos depoimentos falam de uma frieza profissional, nenhum dos meninos parecia ter conhecido os dois últimos homens ou ter tido deles qualquer recordação desagradável, mesmo uma experiência que fosse. Voltando a fita, notei um trecho, no último dos depoimentos em que o meu nome é citado, junto com o do Lopes. Que o Lopes tinha envolvimento com eles e que não era só consertar sua viatura já não me era mistério desde que os vi apertarem suas mãos, em minha sala. O grau de envolvimento dele é o que me preocupa. E essa história dele de fazer justiça com as próprias mãos. Que eles tenham se conhecido por problemas mecânicos na viatura me parece lógico. Só que depois, de algum modo, Lopes parece ter descoberto o que aconteceu, o assassinato de Jorge Luís Aita, tratou de se aproveitar disso para uma doutrinação desse tipo. E se isso é verdade, Lopes é muito mais perigoso do que eu jamais supus. Uma mente perigosa a serviço de algo mais perigoso. Mais do que isso, os problemas de Lopes começaram a partir da sexta morte. Os meus, a partir da sétima. Não estamos isolados dos meninos, estamos ligados a eles de um modo muito forte... e sinistro. Senti meu coração apertar. Fui ao banheiro, abri a torneira da pia, para jogar água no rosto, tentar relaxar a tensão. Enxuguei o rosto com a toalha; ao me olhar no espelho, porém, custei a conter um grito: uma imagem de mim mesma a me espreitar por trás da porta entreaberta do banheiro. Eu a olhava, aterrada, e, num movimento rápido, puxei a porta para surpreendê-la; não havia nada lá. Quando tornei a olhar para o espelho, aí sim, eu gritei. A mesma imagem que me espreitava por trás da porta, agora exatamente atrás de mim, como se se aproximasse mais e mais, me fitando nos olhos. Como uma irmã gêmea, só que muitíssimo mais acabada, silente, caída. O mais próximo que eu posso chegar numa descrição seria minha imagem na televisão com defeito na antena. Uma imagem surda, borrada que foi se desvanecendo como fumaça. mas foi a persistência dessa imagem em minha retina que me manteve acordada noite adentro em meio aos mais espantosos pesadelos de horror e violência que jamais antes vivenciei.
Eu estava começando a enlouquecer.


Quarta-feira, 18 de Maio de 1994.

Sete horas da noite. Fernando estava em silêncio, sentado no sofá de sua casa, como de costume, não há mais ninguém por aqui a não ser ele e eu. Ele me olhou com ressentimento quando lhe falei de minha experiência no espelho. Me acusou de me preocupar apenas comigo mesma. Teve um rompante de raiva pura, sem mais.
- Agora eu não estou falando pelos outros, D. Stella. Eu não sou uma máquina. Eu não sou de ferro. Eu sou de carne, tenho sentimentos, como qualquer pessoa. Eu tenho alma e tenho corpo. Máquina é aquilo que a gente usa e quando não funciona mais, joga no ferro-velho para derreter, reciclar, fazer outra. Você sabe qual o tratamento que eu preciso. Eu te mostrei aquele dia na espera!
Ele começou a apertar vários pontos do corpo, para reforçar a idéia de ser de carne e osso e depois se levantou do sofá, no auge da excitação.
- Salva a minha carcaça! É isso aqui que a gente tem de cuidar em primeiro. Arrumar direitinho a casa aonde a gente mora! Sem isso, o que é que a gente é? Alma penada, é isso o que a gente é. Não é a alma que precisa de cuidado, é o corpo. É ele quem dá duro de segunda à sábado!
Sinto que ele se animaliza de forma muito rápida. Sinto também que isso irá acontecer a todos nós, sem exceção. Estou ligada a ele, não do modo que ele quer, mas é algo mais, derradeiro e misterioso. Cruel. Eu queria que ele entendesse a cortina de fumaça que jogava, responsabilizando a própria carência afetiva. Eu queria que ele me dissesse o que nos ligava, porque ou nós desligávamos ou nós iríamos sofrer as conseqüências disso. Eu decidi então apelar para a razão dele.
- Fernando, me ouve, pelo amor de Deus. Isso não é hora, escuta, isso não é hora para esse lugar-comum babaca de paixão entre terapeuta e paciente. Por tudo quanto você tem de mais sagrado, me ouve. O que vocês gravaram naquelas fitas tem nome. Vocês confessaram e contaram com riqueza de detalhes sete assassinatos em seqüência com a frieza e a simpatia de alguém que convida os amigos para tomar o lanche da tarde em casa. E não vem me dizer que isso é saneamento básico em Votoruá ou em Vila Valença porque todos os crimes porcos que aqueles marginais cometeram vocês fizeram questão de reproduzir com detalhes ou até pior no lombo dos sete. A tua casa está imunda, Fernando, não importa quantas faxineiras você pague, porque não fabricaram sabão ainda para limpar o tipo de sujeira que tem nessa casa. A tua mãe não consegue mais ficar em casa à noite porque ela tem medo de você, não o Fernando arrumadinho com camisetinha de marca e tênis Nike ou Reebok, mas a coisa horripilante que eu vi aqui na escadaria, arrastando corrente, toda atravessada de bambus, enrolada num vermelho enjoativo que embrulha o estômago assim que encontra os olhos da gente. E agora eu vou te jogar na cara aquilo que você nunca perde a chance de jogar na minha: eu tenho o direito de saber de tudo, não só o que vocês gravaram naquelas fitas. A noite passada foi a noite mais horrível que eu já tive em toda a minha vida. Senti o prejuízo de me envolver com um paciente até o pescoço aqui, na minha pele, e exijo saber com quem eu estou lidando. Eu quero saber porque o meu marido desapareceu, reclamando que o astral da casa estava cada dia mais pesado, porque minha vida comum e corrente desapareceu para sempre!
O filho da puta apenas sorriu.
- Eu posso te dizer o que tu quiser. É só tu me atender. - Meu sangue subiu quando eu o vi abrir o zíper da calça. Tanto latim jogado fora, eu que pensava estar impressionando. Ele estava tranqüilo, certo de que tinha me apanhado. Ele tinha certeza de que eu seria dele - por livre e espontânea vontade - naquela noite. Tive uma idéia, daquelas idéias loucas, que só me aparecem em momentos de máximo desespero. Eu disse que ia pegar um copo d’água na cozinha. Ele se ofereceu para ir pegar, eu recusei e fui até a cozinha, tomando o máximo de cuidado para não fazer barulho com a gaveta dos talheres. Tirei de lá de dentro uma faca de caça de Fernando e a escondi na manga comprida de minha blusa. Voltei e ele estava sentado no sofá com o zíper aberto, esperando pelo romance. Eu me agachei na frente dele e, sem aviso, agarrei-o pelo membro e apoiei o fio da faca debaixo dele. Ele ganiu de dor com o puxão e de medo da perspectiva de ser castrado por uma louca varrida como a que eu tinha me tornado.
- Que tu tá fazendo comigo? Endoidou? Que é isso!?
Eu novamente não queria conversar sobre o tempo.
- “Há pessoas com nervos de aço, sem sangue nas veias e sem coração. Mas não sei se passando o que passo, talvez não me venha qualquer reação.” (5)
- Tu tá completamente louca! Doida varrida!
- Vou dizer o que nós vamos fazer. Eu vou ficar aqui segurando o bimbo nessa posição bem agradável e você vai me dizer tudo o que eu quero saber. É o único meio que você vai ter para conservar os teus dois ovos.
Ele me olhou numa confusão de espanto, admiração e ódio. Não falou absolutamente nada, ganindo de dor. Achei que ele continuava tomando o meu tempo. Puxei a faca para cima, arrancando mais um ganido de dor.
- Quero saber se estamos combinados.
- Com... combinado... abaixa essa faca só um pouquinho, pelo amor de Deus...
Afrouxei a pressão da faca, dei dois tapinhas bem leves no rosto dele, onde lágrimas, suor e soro vindo do nariz se misturavam, formando uma poça salina.
- Assim é que se faz. Podemos começar pelos depoimentos. Já sei que cada um dos cinco primeiros mortos tinha relação com vocês que era justamente a diferença que vocês tinham. Agora eu quero saber se relacionaram as duas últimas mortes comigo e com o Lopes e porque. Nem pense que eu estou me lixando pro Lopes. E quero saber o que é esse ritual que vocês escondem sob o singelo nome de Clube dos Caçadores.
Fernando suava frio sob a pressão do fio da faca, por todos os poros. O soro que lhe saía pelo nariz eram lágrimas que ele não queria que saíssem pelos olhos. Avaliei a dor que ele estava sentindo, que não era pouca. Mas o que eu tenho passado não é muito diferente. Talvez seja pior. Ele tinha a cara de um animal acuado. Eu ainda não sabia o que ele tinha a dizer, mas já suspeitava que iria preferir que ele tivesse morrido calado.
“Uns dias depois que o meu pai morreu, eu comecei a arrumar toda a oficina e encontrei uma passagem atrás de um paiol que eu comecei a revirar, porque eu queria mudar o espaço dentro da oficina e construir esse anexo aí fora para estoque de peças. Era uma espécie de buraco em que eu cabia engatinhando e fui ver o que era, porque talvez eu pudesse usar até aquele espaço. A única coisa que tinha lá no fundo era um livro. Um livro de capa cinzenta...”
- Felipe ia começar a falar sobre o livro...
- Era sobre esse mesmo livro que ele ia falar. É um anuário de 1966 da Sociedade da Sombra da Luz. Abaixa um pouquinho a faca, por favor...
O nome não era estranho. Rebusquei na memória, mas nada apareceu. Nenhuma visão, relatório de caso.
- Fala mais. Fala mais. - e eu abaixei um pouco a faca, afrouxando a pressão para que ele respirasse.
“A corrente da Sociedade da Sombra da Luz foi introduzida no Brasil em 1546. De vinte e oito em vinte e oito anos, sete pessoas se reúnem por acaso para formar a Sociedade. Geralmente são pessoas que resolvem se juntar para se proteger do que a época em que vivem tem pra oferecer de pior. Ela começou com as pessoas que queriam se proteger dos canibais, dos franceses, dos piratas... Isso tudo que eu tô dizendo está nas atas do começo do livro. Depois tem as atas do ritual, que explicam o que o pessoal que forma a Sociedade tem que fazer para se tornar uma irmandade. É essa irmandade unida que vai formar o círculo em que um ajuda o outro, sem vacilar. Traição aqui não é punida com a morte. A morte já está na própria traição.”
- O que as pessoas têm de fazer? Como é o ritual?
- Cada um captura um inimigo pessoal. Todos matam e o morto é dedicado a um dos membros da Sociedade, que é quem dá o último golpe.
- Com aquele método dos bambus?
- Com qualquer método, desde que seja bem antigo.
Deus, me dedicaram um morto. Uma pessoa que nem conheço. Eu só queria estar em casa. Reclamando dos horários tortos do meu marido, que já nem sei se tenho. Não posso chorar. O pior mesmo é que não posso chorar. Nem fazer cara de contente.
- Não tem que... Não tem que haver permissão, conhecimento de todos os sete???
- Eu adaptei o ritual. Eu tive que adaptar tudo. Estamos em 1994, os tempos são outros.
- Aquele homem... aquele dia... quem veio falar comigo enquanto o resto espancava o homem?
- Marinho... - o resto foi cortado por um gemido al-to, que Fernando não conseguia segurar.
- Ele ia me bater mesmo com aquele cano de ferro?
- Se a senhora ficasse no caminho, certamente ia apanhar bastante dele. Não dá para abaixar um pouquinho mais essa faca?
- Eu chequei com um advogado - eu falava mantendo a faca na mesmíssima posição - e aquele homem não tem qualquer antecedente criminal. Por que mataram aquele homem afinal? Por que fizeram isso comigo? O homem não era bandido, era...
- Não era mesmo, D. Stella? Ele só não era fichado. A senhora olhou bem para ele? Viu quem era? Não lembra daquele filho da puta? Que ele bateu na senhora, tentou estuprar? Que a senhora só contou isso pro Lopes? Abaixa a faca, pelo amor de Deus, tá cortando!
A faca quase caiu da minha mão. Deus, por isso eu lembrava do homem, por isso a desagradável sensação de já tê-lo conhecido. Era mesmo ele. O rosto perdido no passado, que eu tentava insistentemente lembrar era o do rato que me atacou na rua, quando eu ia à casa de um paciente para uma visita. Lembrei-me de quando contei isso ao Lopes, ele disse que pegava o infeliz e matava, eu implorei que ele não fizesse nada, eu nunca quis que Paulo soubesse, nem queria saber da reação dele. Lembro-me de ter dito... naquela hora... que queria o filho da puta morto. Acho que nunca me arrependi tanto de algo que eu disse.
- Foi isso que a senhora falou... ai, abaixa isso um pouquinho mais, pelo amor de Deus... que queria o filho da puta morto. Lopes pegou a descrição dele com a senhora, viu que conhecia e que era o safado mesmo. Passou o endereço pra gente, o resto a gente se encarregou de fazer. Lopes tinha o inimigo pessoal dele. Era bandidão também, como todos os que a gente já tinha matado e que depois a gente ouviu a vizinhança dizer que agora iam poder dormir sossegados. É por isso que a gente mata. É limpeza. Não tem polícia, não tem nada. É a comunidade que tem que dar a resposta, entende? A gente pode matar até sem raiva, D. Stella. Porque é isso que tem que ser feito. Porque a gente é sozinho se não tiver atitude, D. Stella...
Puxei a faca um pouco mais para cima.
- Ai, abaixa isso! Abaixa! Pelo amor...
- Agora eu sei quem é o filho da puta, o safado. Você deve estar no céu, não é, Fernando? Conta mais. A que horas vocês agem?
- Sempre depois das seis... sempre à noite.
- Não são todos os sete que tem de agir juntos?
- Eu adaptei o ritual, pelo Lopes, que não queria se envolver diretamente e também pela senhora, não preciso nem falar...
Ele parou de falar, ofegante, ganindo de dor. Esperei que ele dissesse mais, mas não, nem uma única palavra. Resolvi guiá-lo por entre a memória.
- Puxa pela memória, garoto. Tem mais coisa aí enterrada nesse monte de merda. Tem o coração dos caras. Vocês arrancam e conservam em formol, põem na linha do trem, o que fazem? Por que os corações?
- Nós... jogamos fora...
- Fora, aonde? Nenhum foi encontrado. Fora aonde? Responde, moleque!
- Por aí!
- Por aí, porra nenhuma! Aonde?
Ele tentava desconversar, desesperadamente. Senti o fim da linha bem mais próximo que antes. E que seria duro. Procurando suavizar o ângulo para não cortar, dei um tranco forte na faca de caça, nervosa. Ele uivou de dor e berrou:
- Nós comemos! A fonte de força para formar a irmandade é ali! Eu conto tudo, D. Stella, por tudo quanto é mais sagrado, mas abaixa essa faca que eu tô enlouquecendo de tanta dor!!!
O rosto dele estava cheio de lágrimas. Ensopado. Eu abaixei um pouco a faca, tirei do bolso um lenço e com a outra mão, limpava o rosto dele. Ele me olhava em uma mistura curiosa de dor, ódio e gratidão que antes não tinha visto em nenhum ser. As náuseas me invadiam. Fernando falava, entrecortado de gemidos. E eu tive uma aura que sacudiu meu corpo. Uma maldita lembrança de alguns dias atrás.
- Aquela noite, aqui na tua casa. Aquela carne de caça que você me serviu...
- Você estava saindo do trabalho. Foi naquela noite mesmo. Tu foi a única que comeu sem saber o que era aquela carne.
Me descontrolei. Agarrei o garoto pela gola. Ele pareceu paralisado e não reagiu. Os dentes dele bateram uns nos outros com a sacudida. A loucura me deu forças para isso, porque eu estava apavorada. Homem perigoso, um homem muito perigoso.
- Filho de uma puta. Carniceiro filho de uma puta. Forma um grupo de extermínio particular, e não contente com isso, ainda me enfia numa roda que vem girando desde 1546, uma tradição de extermínio, horror e morte, de tudo o que se possa imaginar de ruim. Feiticeiro nojento, agora eu sei por que é que te chamam de Mestre.
À noite, foi a vez do Lopes conversar comigo sobre o tempo. Mandei ele muitas vezes à merda, só não sei se adianta. Eu o mandei à merda por ter contado tudo o que me aconteceu quando aquele rato nojento me atacou antes de ser transformado numa peneira por aquelas cinco máquinas de matar do tamanho de um guarda-chuva. Perguntei o que ele tinha de idade mental para se associar com um bando de esquizofrênicos infantis e reviver uma tradição tenebrosa que tinha quase a idade da América. Se não tivesse mais, mas isso não vinha mais ao caso. Se não era normal que crianças de 12 a 15 anos formassem sociedades secretas para empalar pessoas vivas, embrulhadas em arame farpado, arrancando olhos, vísceras, corações para comer em rituais mórbidos à noite. E se aquilo era brincadeira de criança, o que seria para ele um trabalho de homem. Lopes disse que agora o que estava feito estava feito. Ficou reclamando só sobre os pesadelos. Nada mais.


Quinta-feira, 19 de Maio de 1994.

Acordei do pesadelo do costume, imaginando ser finalmente Paulo aquela silhueta que parecia me olhar docemente, enquadrada pela luz que vinha de fora do quarto pela porta, até então a única luz que eu tinha.
- Paulo...
A silhueta se atirou sobre mim e foi só silêncio e escuridão. Muito tempo depois, meus olhos começam a se abrir para uma claridade que filtra das minhas pálpebras fechadas. A luz do quarto está acesa e eu estou só. Olhando em redor, tudo revirado. Minha casa inteirinha revirada de pernas para o ar. Percebo que foi um ladrão. Devo ter esquecido a porta da sala apenas encostada. Sem mesmo tomar café, o estômago dando voltas, sentindo as dores do choque com o ladrão que se jogou por cima de mim e me golpeou na cabeça, me dispus a arrumar tudo, ver o que estava faltando. Fiz um inventário. Por incrível que pareça, só levou um relicário de ouro, presente de casamento de minha mãe. E nem era ouro puro e esse sem-vergonha levou. Era o que eu tinha de mais valor, mas o valor que eu dava a ele era sentimental. Me trazia doces recordações de minha mãe. Verifiquei a porta da sala. Exatamente, esqueci de passar a tranca na porta, colocar o pega-ladrão, transtornada por tudo, não sei como pude pegar no sono esta noite. Um sofrimento nunca vem sozinho.
A campainha tocou.
Levantei num salto, sentindo o corpo todo doer, mas em estado de alerta máximo, que a gente pensa, contra todas as normas do bom-senso, que o bandido vai voltar, embora a gente saiba que já está a quilômetros de distância dali. Olhei pelo olho mágico. A imagem de Fernando, deformada pelo olho de peixe era simplesmente bizarra. Tinha algo nas mãos. Abri e ele entrou sem que eu o convidasse, andou pela casa toda, com um passo firme, como um perdigueiro do inferno, diante do meu olhar atônito, observando tu-do. Quando ele retornou à sala, pude ver o que trazia. Um livro grande que ele pousou em cima da mesa, olhando para mim, inquiridor, querendo saber o que aconteceu.
- Foi daqui que ele saiu, não foi?
- De quem você está falando?
- Do homem que eu vi sair do seu prédio agorinha, com uma caixinha dourada na mão.
Caí em mim.
- Ele entrou no meu quarto. Pensei até que era o Paulo, meu marido. O encontrão que ele me deu. Fiquei desacordada um tempão.
- Ah, ele te agrediu, é? Bom saber. Eu trouxe o anuário pra ti. Eu não posso te negar nenhuma informação sobre a Sociedade da Sombra da Luz, já que tu agora é membro como qualquer outro de nós. Eu vou indo. Ah, antes que eu me esqueça, se não nos vermos até amanhã, feliz aniversário, D. Stella.
Senti vontade de dar nele, mas eu realmente queria o livro, não obviamente pelos motivos que ele queria, mas eu precisava estudar aquilo. A fonte.
Precisou ele ter falado para eu me lembrar. Coisas que o Lopes deve ter passado para ele. Continuei arrumando a desordem sozinha, era o que ele poderia ter feito por mim, eu até dispensaria o feliz aniversário. O aniversário que eu nunca mais vou querer recordar. Olhei para a mesa de centro, o livro dormindo sobre ela. De cara, antipatizei com ele. Emanava algo esquisito, o que não era realmente de admirar, toda a aura que tem, a natureza do próprio livro. Livros que Deus me livre. Deixei o livro de lado, terminei a arrumação e fui tomar café. Nada de Júlia no café, nada de ninguém. Depois, sentei para ler o livro. Abri. Na folha de rosto, os anos de vigência, até 1966, até agora o mais recente. Agora, 1994, a história aparentemente continuava a ser escrita. De trás para diante, como na capa e folha de rosto. Quem teria tido a idéia? As primeiras atas dizem respeito, em sua totalidade, ao histórico resumido da Sociedade em todos os anos de vigência, de 1546 a 1966, incluindo nomes de todos os sete membros dela em cada um dos anos. A expressão “introdução no Brasil” poderia significar que a coisa já viesse de muito antes. Desde o começo do mundo, talvez. Caligrafia sofisticada, antiga, em tinta verde, como os antigos textos satanistas, mas esta tem jeito de ser coisa muito pior. O próprio conceito do que seja a sombra da luz tem de passar necessariamente por um lugar tão opressivo que mesmo o inferno poderia ser sofisticado demais, ter recursos demais, se comparado a ele. Algo como um Espaço Negativo Absoluto, ou coisa parecida. Isso não era propriamente uma idéia que eu tinha, mas algo que vinha de dentro como o que já mencionei como sendo produto da experiência direta. Não sei de onde isso vem. Só sei que pode vir a ser bastante importante esse conhecimento direto.
As pautas nas atas de reunião eram alucinadas como eu nunca vi. Algumas relacionavam o ritual que Fernando já havia me explicado, outras falavam em contribuições dadas à Sociedade para o “combate ao sindicalismo vermelho” no porto de Santos na década de 20, ata que chegava inclusive a citar Patrícia Galvão. Outras contribuições contra a “maré vermelha”, dadas à Sociedade em 66, nos começos do regime militar que tomaria o país como refém por bem umas tres décadas. Fiquei imaginando como seria a Sociedade da Sombra da Luz e os seus membros na época da Proclamação da República, ou da Revolução Francesa, no século XVIII.
Li todo o anuário. Era extremamente bem acabado. A capa era em madeira resistente, internamente acolchoada e coberta com veludo tratado muito macio ao toque, com o emblema da Sociedade da Sombra da Luz gravado invertido com letras douradas. As páginas, algumas em seda, com signos estranhíssimos e de astral evidentemente carregado, uma quase no final, muito grossa, algumas em pergaminho, com manchas vermelhas cuja procedência mais provável seja essa mesma que eu imagino agora, com complexos rituais e aquelas coisas dos bruxos que só eles entendem, coisas difíceis de serem obtidas. Sinto pena dos bruxos às vezes. Têm de passar por provações muito difíceis para atingir seus objetivos.
Me interesso agora por uma das páginas de seda, o emblema que contém. Como se cada tipo de página tivesse uma função específica, relacionada ao próprio material de que ela era feita. Outra, uma de pergaminho, aquela que relaciona o ritual dos meninos - e, de resto de todos os outros membros da Sociedade - e fala todo o tempo da precisão com que cada passo dentro do ritual deve ser tomado, para que nada de “imprevisto” o-corra, como “efeito secundário”. Isso me traz uma sombra, sem que eu entenda bem o porquê. Diz este livro que se todos os passos não são seguidos, o poder conferido se torna nulo com o tempo e o livro tem de ser devolvido. A quem? E, mais importante, Fernando leu todo o livro? Como naqueles manuais de instruções assim que você acaba de abrir o CD player, ensinando todas as funções, passo a passo?
“Não são todos os sete que tem de agir juntos?”
“Eu adaptei o ritual, pelo Lopes, que não queria se envolver diretamente e também pela senhora, não preciso nem falar...”
A advertência não parece ser gratuita. Um tipo de sociedade secreta como esta não parece gastar tinta à toa com leviandades. Me preocupo, preciso saber até que ponto o ritual foi adaptado. Lendo atentamente cada etapa, percebo que só uma coisa foi alterada. Não houve o meu consentimento e ação. No caso do Lopes, não houve a ação, mas o consentimento. Pode-se dizer que no caso dele, houve mesmo mais ação que o meu, já que os ajudou a localizar pelo menos dois dos homens, dois que eu saiba. E isso de devolver? Devolver a quem? Esse quem me preocupa. Me preocupa saber se Fernando sabe o que fez, ou se estava movido por tanto ódio que ficou cego para coisas tão simples como essa do ritual ter de ser seguido em todos os seus detalhes, sem esquecer de nenhum. O fato do livro ter sido encontrado por Fernando no fundo de um buraco secreto em seu quintal, remete à idéia de que a casa poderia ter sido usada mais de uma vez como sede da Sociedade da Sombra da Luz. A cada vinte e oito anos havia uma classe de sete pessoas. Nós sete somos - e isso me assusta muito mais que tudo - o que se poderia chamar de classe de 1994. Muito provavelmente, a classe de 1966 fosse uma família, ou freqüentadores da casa. O fato é que não era a primeira vez que a Sociedade utilizava a casa. Devolver a quem? A quem vem utilizando a casa já pela segunda vez consecutiva? Fernando, seus amigos, Lopes. Nenhum de nós é santo. Mas precisamente o que tomou conta deles - e de mim - é pior. Não se pode medir isso em palavras. É ruim até falar sobre isso. Principalmente sonhar com isso.
Tenho de me mexer. Não tenho mais tempo para ficar em especulações e divagações, os sonhos à noite vão se tornando cada vez mais agressivos e cruéis, não dá para prever aonde irão nos levar. Fui dar com o costados na Polícia Civil, aonde mantém registros criminais microfilmados, os mais antigos. Descubro que há uma verdadeira história do crime, como há a história de qualquer outra instituição, como a Sociedade da Sombra da Luz tem séculos armazenados naquelas páginas estranhíssimas e bizarras. Pergunto aqui pelo registro de crimes nos moldes que os meninos relataram, do ano de 1966. O homem sorriu e disse que eu tinha vindo ao lugar certo. Comecei a imaginar um novo Dom Juan do jeito do dono da oficina mecânica e ele me atendeu com muita cortesia, espantoso isso.
- Responderam processo sim, os sete. Eram de uma única família, moravam num sobrado que ainda existe, ali depois da linha do trem.
- Tem os nomes? Ainda moram em São Vicente?
- Os nomes estão aqui na microficha do processo. A família morreu num acidente na estrada. Não se pode provar nada contra eles.
Conferi com a memória das atas de 1966 do livro. Todos os nomes nela constavam da microficha e por mais espantoso que pareça, na mesma ordem. Perguntei se havia algum critério na ordem, a pergunta me pareceu importante, mas era importante para mim. O policial respondeu que era fruto do acaso, surpreso com o tipo de pergunta. Ele acabou questionando o motivo da pesquisa, credenciando-se com a boa vontade que tivera em me atender. Acho que as pessoas deveriam ter acesso a todos esses registros, independentemente da boa vontade dos arquivistas da Polícia, mas eu não estava lá para mesa redonda sobre os direitos do cidadão. Me saí com uma meia-verdade sobre a própria Sociedade, que eu era historiadora, em meio a uma pesquisa sobre correntes, religiosas e de pensamento, desde o período colonial. O arquivista disse que também curtia viagens intelectuais como essa minha, me olhando como se eu fosse um frango no espeto, queria eu estar envolvida somente em uma viagem intelectual. Me despedi e saí do edifício às pressas, queimada, como pode todo mundo querer me comer num momento como esse.


Sexta-feira, 20 de Maio de 1994.

A casa continua vazia, no dia do meu aniversário. E eu percebi, no momento exato em que estou choramingando pelos cantos da minha casa, o quanto a gente pensa que desenvolveu uma couraça contra a ilusão das datas e dos dias e em como eles insistem em te assaltar à luz do dia com a solidão. “Os tolos estão atrás de um amor para justificar. Apenas sonhos irão restar. É uma ilusão da vida.” (6)
Depois do café, saí para ver a luz do sol mais de perto. Mesmo que houvesse nuvens embaixo dele. Andei pelas ruas ao redor da minha. “Perdida nos limites das divagações de minha mente. Apanho ramos das árvores, agitadas por anos de recordações a fim de exorcizar o fantasma de dentro de mim. O som das ondas, das poças de maré arrasta-se por dentro de minha nostalgia.” (7) Aqui eu o sinto arrastar-se dentro de mim. Lento, obsessivo e cruel.
Coloquei música para almoçar, mantive a televisão desligada. Há dias em que mantenho saudável distância do aparelho que meu marido adora. No meio do almoço e do disco, a campainha. Ela agora me assusta, eu tenho medo do que quer que entre por aquela porta. Pode ser até meu marido, finalmente, eu tenho medo. Mas não é ele o maior dos sustos, é o dono da oficina mecânica que está no batente da porta, esperando convite para entrar. Escancarei a porta e liberei a passagem. Fernando entrou com um embrulho na mão, que imagino ser um presente de aniversário. Não estou enganada. Abri o presente a contragosto.
- Não precisava se incomodar - falei secamente.
Ele pareceu inibido pelo balde de água fria que eu jo-guei. Embrulho delicado, que provavelmente foi feito por uma mulher e que aberto revelou um disco da Maysa Monjardim. Agradeci, num tom mais suave.
- Bom - ele disse - esse aí é meu presente. Agora, lá embaixo, a moçada está te esperando na caminhonete, com mais dois presentes que são nossos.
- Mas... por que eles não subiram e trouxeram os presentes junto com você?
- Porque um deles vamos ter que levar de volta.
Não entendi, mas senti uma sensação estranha ao não entender. Desci com ele, a ver se juntava as peças de mais esse quebra-cabeça.
A caminhonete fechada, os meninos todos em volta do porta-malas. O volume parecia ser mesmo grande. Devolver parece ser a palavra de ordem por estes tempos. Devolver. Levar de volta. Todos eles me deram parabéns pelo aniversário. Felipe e Marinho me perguntaram se eu estava melhor depois de ter desmaiado. A imagem de Mário com aquele gorro naquela noite, cano de ferro na mão voltou imediatamente, respondi mecanicamente que sim, depois de mecanicamente agradecer pelos parabéns. Fernando tirou as chaves do carro do bolso e as estendeu para mim, sorrindo.
- A aniversariante faz as honras, mesmo com a Sociedade da Sombra da Luz incompleta, ele falou, referindo-se à ausência de Lopes.
Cercada pelos olhares curiosos dos meninos em suspense, eu peguei a chave, nervosa, em suspense também. Girei a chave com dificuldade, com relutância. No momento em que a chave completou a volta, destravando a lingüeta da tranca, a mola possante de ar comprimido empurrou para cima o tampo do porta-malas. O espanto veio em ondas, com uma surda vontade de vomitar que quase me trouxe de volta o almoço que eu nem tinha terminado: minhas vistas escureceram diante do pavor brutal de ver o corpo do homem que tinha invadido minha casa no dia anterior, atirado no fundo do porta-malas, totalmente mutilado, embrulhado em plástico transparente com um laço de fita vermelha enorme, amarrando o pacote macabro. Sobre o embrulho, suas figuras perdidas em meio à confusão de sangue, vísceras e carne mutilada, um cartão de aniversário humorístico do Garfield, sem envelope e... o relicário que fora de minha mãe e que me pertencia desde meu casamento. Comecei a tremer. Silêncio à minha volta. Todos eles estudavam juntos a minha reação, parecendo saborear cada segundo da pesquisa, satisfeitos pelo efeito causado pela demonstração de força que me deram. Um ruído de motor de um carro que vinha descendo a rua. Em pânico, olhei na direção. Um carro de polícia. E ele parou exatamente ao lado da caminhonete. Minha expressão de surpresa pode ter sido a causa da parada. Se encontram este presunto aqui dentro, estou nisso até o pescoço, senão por autoria, por ocultação de cadáver. Estou sozinha no meu medo. Os meninos têm as expressões mais calmas, divertidas e contemplativas deste mundo. De dentro da viatura, os policiais me encararam. Rezo para que não desçam. Nem um único traço de medo no semblante das crianças em volta.
- Algum problema, senhora? Parece pálida. A senhora está precisando de ajuda? - O policial parecia sério.
Um pouco mais de vivacidade, Stella, por Deus.
- Foi só uma tontura, policial, estou melhor. Isso me acontece às vezes, de manhã.
O motor da viatura apagou. Deus, eles vão descer. Meu coração quase parou, mas o motor tinha apenas morrido. Os dois policiais ainda levaram algum tempo olhando para o carro de Fernando e para nós todos antes que se fossem, em baixa velocidade, típica de uma ronda. Quando estávamos novamente sozinhos na rua, peguei o relicário e o guardei junto comigo, cheia de náusea, companheira inseparável daqueles dias.
- Não vai ler o cartão? Todos nós assinamos.
- Vocês têm coragem de...
- O nosso trabalho por enquanto está completo, D. Stella. A gente trouxe o nosso amigo porque sabia que ia ser um ótimo presente de aniversário saber que pode dormir sossegada de novo.
Eu fiquei olhando para os cinco me olhando, assombrada com todo aquele absurdo. O Mestre prosseguiu, monocórdio, como uma ladainha.
- A Sociedade da Sombra da Luz está de mudança para o Mato Grosso. Nós vamos passar mês e meio lá, numa fazenda que é do tio do Marinho, treinando um pessoal de lá e dos outros lugares do Brasil que querem aprender táticas de sobrevivência. Acredito que tu não vai querer ir. Quem vai te representando é o pai do Mário, irmão do dono da fazenda. Foi ele quem levou os meninos na tua sala, aquele dia, lembra?
Apontei para a massa disforme de carne e vísceras retalhadas em postas, embaixo do saco plástico.
- São essas as táticas de sobrevivência que vão ensinar? Esse tipo de trabalho?
- Caça com batedores, montanhismo, alimentação silvestre - foi Felipe quem respondeu - claro que a gente também vai ensinar esse artesanato. Tá cheio de sem-terra crescendo o olho nas fazendas e a gente quer mais treinamento em florestas e aprender a montar a cavalo. Então vai ser um intercâmbio de informações muito bom entre todo mundo.
- Você não acha isso um pouco artesanal demais para o montante de sem-terra que está pululando em Mato Grosso, Felipe?
O meu ponto mais negativo é embarcar na própria loucura deles.
- Uma vez que espalhar em cadeia, acaba sendo industrial, D. Stella. - disse ele.
- Que maravilha. Não bastasse o governo, a imprensa e a UDR e os sem-terra vão ter que aturar a Sociedade da Sombra da Luz agora. Eu tenho pena de quem vive no interior do Brasil.
Sem dar a eles tempo de responder, atirei o disco que o Mestre me trouxera de presente dentro da mala da caminhonete, fechei a tampa, dei meia-volta e voltei para o meu apartamento sem nem olhar para trás. Ainda ouvi o Mestre dizer:
- A gente não esperava agradecimento, mas também falta de educação é jogo duro, hein?
Fechei a porta do prédio, gritando um palavrão.
Terça-feira, 10 de Maio de 1994.

As ausências do pintor me preocupam. Já tínhamos combinado a volta das sessões ao Centro, porque ele de repente, sem mais, achou melhor que fosse assim e como ele mesmo chegou à essa conclusão, achei que não iria faltar. Mas ele faltou e eu resolvi cobrar pessoalmente, à domicílio, essas ausências dele ao tratamento. Quando desci do ônibus, eram quase nove horas da noite. Ruas desertas nas proximidades da casa dele. O silêncio seria completo, se não fosse por um barulho indistinto, duas quadras à frente. Eu apertei o passo, com uma impressão negativa do ruído, que mais negativa ia ficando a cada passo que eu dava, por ganhar, com a proximidade, mais resolução. Mais à frente, eu pude ouvir que se tratavam de gritos de socorro, outras vozes gritando junto, um pandemônio. Quando eu virei a esquina, a cena se abriu diante dos meus olhos e eu gelei. O sangue fugiu do meu rosto. Cinco homens, usando roupas e gorros pretos, com uma abertura apenas para os olhos, espancavam cruelmente um outro caído no chão. Ao lado dele, a bicicleta que usava, totalmente arrebentada, uma roda que ainda girava, girava, com seu barulho de metal. Ele recebia socos e pontapés que eu podia ouvir de longe, antes que me aproximasse daquela cena dantesca de violência. A vinte metros do evento, um dos homens, impressionantemente baixo, se aproximou de mim com um cano de ferro coberto de sangue na mão e falou, com uma voz enjoativa e grave, disfarçada:
- Parada aí, senão sobra para a senhora também. Chama uma ambulância, se quer ajudar o comédia. Ele vai precisar. Talvez, até um rabecão.
Saí correndo. Eu não ia levar a melhor. Corri a um orelhão. Pelo caminho, lembrando da figura do agressor que veio em minha direção, a voz parecendo um sintetizador esquisito, voz que dava arrepio. Silêncio, enquanto eu ainda estava ligando para o Pronto-Socorro, quando só gemidos fracos e entrecortados se podiam ouvir mesmo à distância, do ponto do orelhão aonde eu estava. Quando eu voltei, o homem e a bicicleta no chão, impossível dizer qual dos dois em pior estado. O homem inerte, só, os agressores tinham desaparecido como fantasmas dentro da escuridão da noite. Esquecendo-se na obscuridade dos tempos. Olhei para o homem. Um arrepio me percorreu a espinha.
Lembro-me deste homem. De algum lugar.
A impressão é extremamente negativa. Fiquei tremendo de cima a baixo, como um mal de Parkinson que vem de ansiedade, recordações que tento puxar de dentro de mim, sem conseguir. Sensitividade e amnésia. É essa a mistura de mim mesma no meu trabalho.
A ambulância. Até que não demorou tanto quanto eu imaginava, se bem que cada segundo passado ali naquela situação era uma verdadeira eternidade. Dei meu telefone e algum dinheiro ao motorista para que ele me desse um retorno do estado de saúde do homem assim que possível. Porque eu tinha tido um, vários maus pressentimentos. A ambulância se foi e eu fiquei olhando os restos da bicicleta. Percebi uma quantidade pequena de um material fibroso sobre o selim manchado de sangue e rasgado à base de pontaços. Sim, fibroso. Farpas de madeira. Veio a imagem de alguém que junto aos amigos afiava madeira. Uma onda de terror me invadiu.
O Pintor.
Corri até a casa dele. A mãe foi quem atendeu, sorriu ao me ver, convidou a entrar, ofereceu café, mas qual nada. Falei rapidamente que eu não iria demorar, só queria falar com seu filho. Ela me disse que o Pintor não estava. Disse que tinha saído com os amigos, me forneceu endereços de alguns deles. Bati em todos, mas nem sombra de ninguém. Parei numa esquina, desconsolada. Pensamentos de derrota, debaixo de uma lâmpada de vapor de sódio, que ofuscava o céu e inundava a rua com um brilho amarelado baço, que me deixava mais confusa e nervosa. Depois de algum tempo, meus olhos se fecharam. Sentada na esquina, ouvindo grilos dos terrenos baldios em volta, sons de rádios e televisões ligados na novela do horário nobre. Estava num estado de que não me importava ficar ali. Ou sair vagando pelas ruas. Mais meia-hora e eu decidi me movimentar. Quanto tempo poderia ficar ali sem sofrer uma agressão? Meu corpo parecia mais e mais pesado a cada passo que eu dava. Quando tomei consciência de onde eu estava, vi que a casa de Fernando não era longe dali e que se eu não tinha podido visitar um de meus pacientes, poderia visitar o outro. Eu devia mesmo era ir para casa.
- Que perigo, hein? - Fernando mostrou-se assustado com a história, assim que abriu a porta - e você ainda ficou ali? E se eles voltam? Dorme aqui!
Eu disse a ele que era provável que não se interessassem por mim; se eles tivessem tido intenção de me machucar, já o teriam feito, naquele exato momento. Mas me deixei convencer. Estava cansada e nervosa demais para ficar vagando até o ponto de ônibus mais próximo, e daí, a espera interminável por um que viesse me resgatar. Fernando agora andava pela sala e eu pude distinguir nitidamente aquele som metálico, aquele sintoma sutil que nem mesmo ele consegue perceber. Parecia estar mancando da perna esquerda. Perguntei e ele confirmou. Eu declarei que podia ouvir o som metálico.
- Será que é esse negócio da mente? Será que é por causa da mente que eu estou mancando assim?
Horas mortas. Estou deitada já há várias horas. Silêncio por toda a casa deserta de família, novamente somente eu e o paciente que eu tento tratar. Eu ouço um ruído de metal distante, que quebra mansamente o silêncio da noite. Deixo que ele me embale, como uma caixinha de música cuja corda vai acabar, mas este ruído é persistente. E é o mesmo que ouço dos tênis de Fernando. Começo a ficar inquieta. Então, me levantei no escuro do quarto e abri devagar a porta que dava para o corredor. Escuridão total dentro da casa totalmente apagada, exceto por um brilho avermelhado que vinha da escada. Me aproximo devagar, sem ruído, os passos abafados pelo carpete macio que segue pelo corredor. Quando cheguei à escada e vi o que era, retrocedi bruscamente, meu corpo em ondas de frio que subiam do meu estômago, conseguindo a muito custo me conter: muito lentamente, uma imagem brilhante de Fernando subia a escada, mancando, movimentos como em câmara lenta, imersa num brilho doentio, baço, enjoativo. No pé esquerdo dessa imagem espantosa do corpo astral doente dele, uma corrente que ele vinha arrastando escada acima. O som da corrente não mais parecia musical; era agora um som pesado, esquisito, que punha nos nervos dos mortais os mais estranhos arrepios. A aparição, transpassada de bambus por todos os lados, usava... a mesma camiseta que Fernando usava quando me abriu a porta da casa. Me abaixei atrás de uma coluna de vaso existente no alto da escada, coisa instintiva, porque um corpo astral é um corpo astral, não adianta se esconder. Prendi a respiração, quando, já no alto da escada, a aparição se voltou na minha direção. “É agora”, pensei. Mas ela mudou de rumo. Dirigia-se agora para o quarto de Fernando. Entrou pela porta entreaberta e de dentro do quarto vinha sua luz morta, enjoativa, carregada. Senti que tinha de ir ver, só para saber se ele estava bem. Me levantei e comecei a andar pelo corredor, seguindo a aparição medonha dele. Cada passo sobre o carpete macio no interior daquele corredor escuro era um grau a mais na minha ansiedade. O silêncio era mortal, como algo que espera você, como um caçador que sabe que tem de se confundir com o ambiente de negror onde estamos. Nesses pensamentos, estou de frente para a porta entreaberta do quarto. Encosto a mão na maçaneta e demoro a empurrar, com o temor natural do desconhecido. A porta foi se abrindo bem devagar, com um som rangente nada animador naquela situação, revelando, mesmo no escuro, o vulto que estava deitado sobre a cama. O corpo de Fernando foi se virando devagar na direção da porta. Meu estômago esquentou e esfriou de uma só vez. Ele tinha os olhos abertos na minha direção, fluorescentes como aquela aparição que Felipe disse ter visto, um zunido fino que eu só consegui entender que era um grito quando as janelas do quarto já vibravam de se rachar, tal a intensidade do som.
Saí alucinada, acendendo todas luzes que havia. Eu podia ouvir os gritos de terror dele por toda a casa. Quando voltei, ele se debatia numa poça de suor, sobre a cama. Eu o acordei e vinte minutos depois, ele começou a se acalmar. Ficou sentado na cama, com lágrimas discretas descendo pelos olhos, olhando para mim. Aí, começou a ficar nervoso, quando a litania de auto-complacência e abandono dele recomeçou. Me implorou que eu dormisse junto com ele. Eu disse que ele tinha sido mais original durante a “espera”, no Horto Votoruá. Ele desesperou de novo. Disse que não encostaria em mim. Jurou. Eu fiquei.


Quarta-feira, 11 de Maio de 1994.

O que restou de sono não teve - graças a Deus - mais incidentes. Acordei com o cheiro de café passado na hora e com Fernando me sacudindo, dizendo que o irmão dele chegaria em uma hora para abrir a oficina. O café estava muito bom, mas eu ainda estava baqueada. Ainda mais por dormir fora da minha cama.
No carro, eu disse a ele que aquela hora da madrugada não era boa para conversas sobre certos assuntos, talvez por isso eu tivesse insistido em dormirmos o mais rápido possível.
- Eu sei agora porque sua mãe e seu irmão te deixam sozinho aqui. Acho que eles pensam que você tem culpa no que está acontecendo. Fernando, eles não estão agüentando o astral dessa casa. Porque está realmente bem esquisito, pode acreditar. E você e seus amigos são silenciosos. Quanto mais quieto, mais intensa a emoção.
Fernando parou o carro num sinaleiro e me olhou.
- Se a senhora está querendo me assustar, está fazendo realmente um bom trabalho.
- Não foi você quem me cobrou o direito de ficar sabendo de tudo? Eu me lembro bem disso.
Me deixou a duas quadras de casa e arrancou, sem mais despedidas. Fui para a cozinha fazer café, coloquei música suave, eu queria tomar café de novo. Nem mesmo sei porque. Café da manhã solitário. E me bateu, de repente, que eu mesma, como Fernando e os outros, vinha me sentindo cada vez mais sozinha dentro de casa, semanas em que eu nem mesmo via meu marido. Nesse ponto, eu tinha mais em comum com os garotos do que apenas a relação que temos durante a terapia. Isto começou a me preocupar. Porque eu não vinha reparando muito nisso, eu culpava os dias agitados e o caso mais estranho que já peguei até hoje. Agora, eu achava que estava apenas me enganando. Tento me lembrar, apesar de que em vão, da última vez em que o vi.
O som da cigarra da minha porta interrompeu as reflexões. Abri e me surpreendi. Era Júlia, a mulher do Lopes. Já era raro que ele viesse, quanto mais ela. Quase não saía de casa. Se saía, voltava rapidamente de algum supermercado, padaria ou mercearia. Eu a fiz entrar. Ela disse que se eu não tivesse tempo de conversar naquela hora, que ela voltaria mais tarde.
- Não, não, eu ia mesmo tomar café sozinha, nada disso, me faz companhia no café, Júlia. Não estou nem um pouco ocupada agora.
Pobre Júlia. Eu simpatizava muito com ela. Mulher trabalhadora, simples, honesta, com paciência de santa para aturar o marido em profissão de risco. Lopes talvez lá no fundo seja um bom homem, só que com uma casca muito pesada de arrogância, muito cheio de si. Não tenho muita paciência para com esse lero-lero de auto-glorificação.
- Eu vim te procurar por causa do Lopes, Stella. Ele está trabalhando sem parar num caso... Não sei se ele já comentou sobre isso com você...
- Várias vezes. Veio aqui me contar e tudo.
- Você vê? Ele parece um obcecado com isso. Deu para falar dormindo e até ter pesadelos, imagina.
- Pesadelos?
- Acorda gritando que estão furando o corpo dele todo.
Quase deixei cair a xícara de café cair. Júlia teve de me ajudar. A cozinha escureceu, voltou a clarear.
- Tudo bem com você, Stella?
- É só tontura de manhã. - e eu olhei fixamente para ela - Júlia, há quanto tempo o Lopes já vem tendo esses pesadelos? Há muito tempo?
- Mais ou menos uns quinze dias atrás. Antes disso, e-ram os ruídos que ele dizia ouvir no hall do prédio à noite. Outra verdadeira obsessão dele.
- Mas o Paulo também ouviu os ruídos...
- Acredito - ela pediu desculpas por me interromper - mas os ruídos que o Paulo ouvia provavelmente eram do Lopes, descendo as escadarias à noite para verificar o que ele estava ouvindo no hall. Ele nunca encontrou nada lá, nem ninguém. Tenho medo de que seja do sonho dele. Coisa de stress do trabalho, você sabe. Já pedi tanto para ele largar, fazer um outro concurso, mas fazer o que? Ele diz que é a única coisa que ele sabe fazer na vida.
Ela ainda disse mais antes que se fosse. Pedi a ela que sondasse o marido, para que descobrisse mais detalhes acerca de seus pesadelos. Passei o dia nervosa com o que tinha acabado de ouvir.
Fernando, João Paulo, Felipe e Marinho não compareceram para a sessão marcada com eles. Não eram ainda sete horas quando terminei a consulta com o Pintor, o último agendamento do dia. Passei duas horas da consulta tentando arrancar dele onde tinha estado na terça-feira à noite, através de perguntas, sugestões sutis. Nada reportou de misterioso ou suspeito. Referiu ter ido com os amigos de trabalhos manuais até o Itararé.
Assim que pus os pés na calçada, uma buzina se fez ouvir. Senti um calafrio imediato, já conhecia aquela buzina. Fernando desceu da caminhonete e veio ter comigo.
- Se você vir seus amigos antes de mim, diz para eles aparecerem em todas as sessões de terapia, não só aquelas logo depois das sessões de pesadelo que eles tem, certo?
Fernando pareceu desapontado com a recepção, mas arriscou assim mesmo um palpite:
- Deve ser problema no colégio. Prova, sei lá.
- Se Antonio Meucci e Graham Bell passaram a vida pesquisando a telefonia, é porque tinham a esperança de que ela viesse a ser utilizada um dia.
Ele mudou de assunto bruscamente e após trinta minutos de lábia e matreirice, conseguiu me enfiar dentro da caminhonete em direção da sua casa. Achei que acabaria conhecendo mais a casa dele do que a minha própria algum dia. Ao chegar, já na copa, eu não resisti à tentação de perguntar a ele:
- Deve estar querendo me ensinar culinária, não é?
Fernando riu e colocou os pratos na mesa. Encheu os dois com um risoto de frango perfumado, duas sala-das com-pleta-mente diferentes, e apenas no meu colocou um pedaço de carne grande, do tamanho de um punho.
- Que carne é essa?
- Caça. Como aquela cotia que nós comemos.
- Sobrou carne para você?
- Eu já comi a maior parte. Guardei esse pedaço pra ti. Eu preparei mais por você, foi até por isso que eu cacei. Ca-prichei por que é para ti.
Sempre noto o modo como ele atropela toda a gramática - coisa que eu geralmente faço também - quando se trata da segunda pessoa, lutando entre o você cosmopolita e o tu tão utilizado pelos santistas na conjugação errada. Comi o que havia no prato. Senti a vista se avermelhar intensamente, a visão se distorcer completamente ao ingerir o último pedaço. Ouvi um som percussivo próximo, mas também poderia ser o relógio de parede. Mas eu já tinha ouvido aquele som antes e não era de nenhum relógio de parede. Apesar da sensação estranha, a comida dele estava boa como de costume e eu já ia elogiar a qualidade da carne quando ele me interrompeu, como se soubesse de antemão o que eu ia dizer.
- Só estou fazendo minha obrigação.
- Você não tem nenhuma obrigação comigo, a não ser não mentir sobre o que sente.
- Não estou pagando pelo tratamento, estou?
- Nem precisa. Os brasileiros pagam mais de cinqüenta impostos diferentes e pelo menos um deles tem de servir para subsidiar esse tratamento. Ninguém no governo te dá nada de graça, Fernando. Eu fiquei curiosa, que bicho é esse que você caçou?
Ele se recusou a me dizer que espécie de bicho era, me desafiando imediatamente a adivinhar. Eu disse nomes, ele negou todos, e, lá pelo vigésimo nome, eu acabei desistindo. Quem, afinal, não tem direito a seus segredos? Ficamos conversando até umas dez horas da noite, quando ele se levantou e disse que ia me levar em casa. Me olhava, não daquele modo fixo e carnívoro, mas de um outro completamente diferente, só que igualmente esquisito.
Abrindo a porta de casa, vi que Paulo me esperava no sofá. O semblante e os olhos carregados, a casa carregada de algo nocivo. Sem nem me dizer boa-noite, disse que tinha telefonado para o Centro de Hipnose atrás de mim, sem sucesso, e isso já vinha de cinco horas atrás.
- E não adianta dizer que foi na Meire, porque ela estava no plantão, isso eu confirmei com ela mesma, que atendeu o telefone do CVV. E eu anotei esse recadinho, que um motorista da SESASV passou para você. Lê e me explica o que está acontecendo que eu não estou entendendo nem um pouco e estou gostando menos ainda.
Meu coração descompassou. Recado do motorista da ambulância. Recado que veio à meu próprio pedido, quando a ambulância levou embora aquele homem espancado. Dava conta de que o homem fora novamente encontrado, desta vez completamente morto, num matagal, próximo ao Mosteiro, lá para os lados de Vila Telma, perto de uma bica. Um gelo foi subindo e descendo por dentro de mim, alternando frio e calor. Quando abaixei o bilhete, a cara do meu marido, como se estivesse oculta por uma cortina de teatro, me fitando, carrancudo. Eu já fazia uma idéia do que ele iria me dizer.
- Dá para você me explicar o que é isso, Stella? Que história é essa de assassinato? Tem dias que eu tenho medo de entrar na nossa própria casa, Stella. Larga isso que você está fazendo, se possível hoje. Estou sentindo você cada vez mais esquisita, mais nervosa. Esse trabalho está te fazendo mal. Você está me ouvindo, Stella? Dá para largar esse telefone e me ouvir? Para quem está ligando a essa hora? Stella?
Quarta-feira, 4 de Maio de 1994.

Na televisão, no rádio, em todos os lugares, todos os detalhes sobre a chegada do corpo de Ayrton Senna a São Paulo, número de pessoas que passaram mal, nome, endereço e RG de todas. Ponto facultativo nas repartições públicas, bandeiras a meio-pau, luto oficial de três dias. Observo a televisão, as avenidas de São Paulo apinhadas de gente ao longo do trajeto do carro de bombeiros que levava o caixão coberto pela bandeira brasileira. Faz tempo que trabalho com hipnose, mas existem certas formas de veneração e hipnose coletiva que superam, vencem o tempo. O Brasil parou outra vez. Fiquei olhando a multidão nas ruas, impressionada. Uma verdadeira loucura. Um país com uma ausência crônica de heróis, país de tanto menores quanto maiores abandonados querendo por força forjar um conceito de honestidade dentro de tudo o que não conseguimos criar de verdade. O mesmo país em que vemos pessoas saqueando lixo hospitalar em busca de carne humana para comer. Nossos antepassados comiam carne humana para manter sua coragem. Seus descendentes comem para manter o corpo em pé.
O pintor parece sempre melhor cada vez que o vejo. Mas há algo de inquietante no ar, talvez porque eu não esperava que progredisse tão rápido assim, talvez pelos meninos da vizinhança com quem ele ficava, sérios, carrancudos, estranhos. Quando eu cheguei, vi que o trabalho com madeira continuava, a todo vapor. Obra da terapeuta ocupacional. Eu já perguntei a ela se acha seguros estes trabalhos em ripas de madeira afiada. Acrescentei que nem se davam ao trabalho de lixar as ripas, deixando expostas farpas primitivas, perigosas. Ela declarou que o adolescente tem o direito de aprender por conta própria. A má impressão continua em minha cabeça, principalmente a impressão de vê-los afiando aquelas ripas.


Quinta-feira, 5 de Maio de 1994.

- A senhora é quem cuida do Mestre?
- Mestre? Quem é o Mestre?
- Ele quer dizer Fernando, Dra. Stella. É o nome do Fernando que você tem que dar, Mário, ela não conhece seu amigo como Mestre.
Em frente da minha mesa, quatro garotos e o pai de um deles, precisamente Mário, o que tinha acabado de falar comigo. O pai se identificou como Flávio e foi apresentando os garotos; o filho, Marinho, de 14 anos, João Paulo, de 14 anos, Felipe, 13 anos, e Fernando, de l2 anos de idade. Ele disse que usam o apelido de Mestre para não confundir os dois Fernandos e também pelo Mestre ser o mais velho dos cinco. Devo ter parecido interrogativa em minha expressão facial, porque o homem entrou rápido no assunto. Contou de uma onda de pesadelos que o Mestre tinha iniciado e que se espalhou por todos os outros da turma. O mais recente caso era o de Fernando, o de doze anos. Vinha já há uma semana reagindo a pesadelos em que tentava pular uma cerca de bambus e acabava preso ao arame farpado dela. Fiz com que todos se sentassem, já que, até aquele momento, não tinham tomado a iniciativa. Resisti à tentação de ir relaxando um por um com a corrente galvânica. O homem disse que tinha de ir embora. O momento foi em que senti que não mais veria aquele homem, sem saber explicar o porquê do sentimento. Ele saiu com um gesto largo, simulação de despedida. Pareceu abanar a cabeça ao ultrapassar o umbral da porta, fechando-a atrás de si. Os meninos ficaram me olhando, curiosos. Eu voltei a Marinho e perguntei se sonhava mais coisas. Ele disse que no sonho, ele se sentia como se fosse de bambu. Perguntei a ele como é que uma pessoa toda feita de bambu se sente. Ele disse que muito fibrosa por dentro. Achei graça, só que também achei melhor não rir.
- E tem também o tambor.
- Como o de Fernando? Quero dizer, como o do Mestre?
Resolvo empregar o apelido, pelo menos quando com o grupo, para não gerar confusões. Se o motivo é realmente esse, é o mesmo que o meu. Marinho falou que todos ouviam o mesmo tambor. Não eram vários tambores diferentes, o tambor que se ouvia era um só para todos. Lembrei de quando Fernando me contou seu sonho, usava uma expressão parecida com esta, que não eram vários. Que era um só. Me bate uma idéia de união, “a gente era a mesma pessoa”, esse tipo de idéia que venho ouvindo há tempos com ele, e agora com seus amigos. Sem mais, os meninos começaram a bater no chão, simulando o tambor que ouviam, o ritmo dele. Era a mesma batida da valsa que eu pedi a Fernando que reproduzisse em sua casa. Meus olhos notaram uma transfiguração na visão da sala, que começou a vibrar no mesmo ritmo que eles faziam todos juntos, com impressionante sincronismo. A sala agora parecia acesa de um vermelho vivo e morto ao mesmo tempo, embaçado e cansativo. Eu pedi que parassem com aquilo e que me contassem seus sonhos. Bambu, arame farpado e sons de tambores em compasso de valsa foram temas recorrentes em todas as narrativas de cada experiência individual; eles chegavam a rir quando o próximo contava o seu sonho, sucessivamente. Ninguém relatou mãos puxando-os para baixo, como no sonho do Mestre, mas eles tinham, por sua vez, detalhes individuais que também não apareciam em quaisquer outros sonhos, detalhes que eram únicos de cada um, sutis diferenças, mas aonde se pode encontrar a explicação para muitas coisas. Questionei.
- Cada um tem mesmo um detalhe diferente - disse Fernando, o mais novo - as coisas que eu sonho diferentes, nem o Mestre, nem mais ninguém sonha. Só eu. Fora isso, é tudo igualzinho.
Nos outros, como no Mestre mesmo, o mesmo desembaraço, a mesma disposição do Mestre em contar tudo - ou quase tudo - pela metade. Noto isso no mesmo momento. Pareciam meninos sociáveis e não apresentavam tiques ou desordens psicomotoras de qualquer tipo, ao menos até então. O olhar de todos era o mesmo olhar vivo e curioso de Fernando ao me ver pela primeira vez. Seria um olhar uniforme, se o Mestre estivesse presente. Sem motivo, senti uma apreensão, como nuvem que passa sob o sol e escurece tudo embaixo dela. Perguntei de que bairro de São Vicente eles eram. Disseram que de Votoruá.


Sexta-feira, 6 de Maio de 1994.

Fernando ainda não tinha se sentado, quando perguntou pelos amigos. Se tinham todos os quatro vindo à sessão. Respondi que sim e acabei mencionando alguns detalhes do encontro.
- Em resumo, foi isso mesmo, Mestre.
Chamei pelo apelido, ver qual a reação. Foi negativa. Ele não gostou de ser chamado pelo apelido, como se ele fosse apenas propriedade dos cinco e de mais ninguém. Questionei sobre a reação.
- É besteira, é porque sou o mais velho e tenho um xará. Eles gostam de me chamar assim.
Fui ao assunto diretamente. Terapia de grupo.
- É o primeiro caso de sonho contagioso que vejo em anos de experiência clínica, Fernando. Realmente muito interessante. Interessante mesmo.
Ele esticou o pescoço fixou em mim os olhos, com raiva.
- Interessante, é? Interessante porque não é tu que tem ficado acordada à noite inteira por causa desses sonhos! Tu tá numa boa! A gente é que tá se virando com cada sonho animal que nem força para levantar a cabeça do travesseiro nós temos! De fora, eu também acho tudo interessante! Assim é muito fácil!
Engoli em seco, eu não esperava essa onda de revolta, mas, no caso dele, tudo e nada se pode esperar. Fernando estremeceu, bocejou meia-dúzia de vezes, e por fim se acalmou, como se tivesse gasto o que lhe sobrou de energia naquela absurda explosão de ira. Aproveitei a pausa:
- A gente ainda não saiu da estaca zero, Fernando. O que é que você quer? Tem um mês que começamos a terapia, lembra-se? Eu fico numa tentativa de arrancar coisas de você e eu digo arrancar, porque eu acho que há muito mais do simplesmente o trauma que você passou. Porque se você realmente acha que trauma é doença contagiosa, eu encerro o caso de vocês e encaminho para um infectologista. E não se fala mais nisso.
A reação dele me mostrou que eu o atingi no final da frase. Eu tinha mesmo colocado um efeito meio fantasmagórico só para intimidar. O que não pode ser é ficarmos o resto da vida nesse pingue-pongue emocional. Ele pareceu assustado. Eu com medo dele e ele com medo de mim. Deveria haver confiança mútua entre nós, mas eu trabalho com o que eu tiver nas mãos.
- Então, Sr. Aita? Como ficamos? Tenho cinco sonhos parecidos, mas cada um com um detalhe individual. Em que ordem foram surgindo os pesadelos em cada um de vocês? Preciso de algumas respostas ou nós não vamos a parte alguma com qualquer terapia.
Ele relatou com um olhar estranho que tinha sido o primeiro, eu respondi que isso já era coisa velha. Mesmo assim, ele me lembrou do tambor, das mãos puxando-o para baixo, da cerca e do arame farpado. Disse que na época não contou nada a ninguém; apesar de horríveis os sonhos, achou que seriam somente uma fase passageira.
- Um dia, o Marinho comentou comigo um sonho que ele tinha tido na noite antes. Tentou pular uma cerca de bambu e as taquaras e o arame farpado entraram nas pernas dele. Falou do tambor igualzinho ao que eu ouço no sonho e acordado. Aí, eu contei o meu sonho para ele e eu me lembro que nós comentamos que era impossível duas pessoas sonharem a mesma coisa. Mas, nós concordamos que era isso que estava acontecendo. Combinamos o silêncio, não contar nada para os outros. Só para ver o que dava. Um tempo depois, os velhos do Felipe tiveram que tirar ele à força da grade da sacada do apartamento aonde ele mora, que senão ele ia se jogar lá embaixo. Um homem com olhos luminosos entrou no quarto dele lá pela uma da manhã. Fábio, o irmão dele, diz que não viu nada, mas o Felipe viu, ouviu o barulho alto do tambor, tentou correr - tudo isso ele contando - e enfiou a cara na cerca de bambus. Não soube me dizer como ele chegou na varanda, mas, para mim, a grade da sacada tava no mesmo lugar da cerca de bambus. Até os pais dele conseguirem tirar ele da varanda, com o irmão ajudando, isso levou mais ou menos uns vinte minutos, era tudo sonho, ele gritando lá da varanda para a rua que queriam acabar com ele, os vizinhos acendendo as lâmpadas na redondeza toda. Quando ele acordou, o pai dele contou tudo o que aconteceu para ele. Ele contou o que ele viu, mas viu sozinho. Ninguém encontrou o tal homem de olhos luminosos pela casa, nem mesmo pela região. Aí, foi João Paulo, num sonho em que ele estava pendurado por um dos pés no arame em cima de um buraco cheio de pontas de bambu, esperando por ele, aquele mesmo som do tambor. Acordou suadão, tonto, sem força pra nada. E mais agora, o nosso companheiro mais novo, Fernando viu a mesma ponta de bambu atravessar o corpo dele inteirinho, entrando...
Parou de falar, sem saber se devia continuar.
- Entrando...? Entrando o que?
- Posso falar palavrão na sua frente?
- Se ajudar a explicar, acho que deve, Fernando.
- Bem, entrando pelo cu dele.
Ele leu meu pensamento pela minha expressão facial.
- Eu posso jurar que não é nada disso que a senhora está pensando. - Ele falou apressado.
- Então, o que é?
Ele foi obrigado a confessar que não sabia. Mas a resposta acabou me deixando meio confusa. Fora isso, eu procurava unir as pontas dos novelos cada vez mais intrincados e incompreensíveis.
- Olha, Fernando, me desculpe, mas deve ter havido alguma situação que unisse vocês dentro desses sonhos em cadeia. Isso muda tudo, mas mesmo assim, estamos na estaca zero. Só que eu vejo que alguma coisa o grupo de vocês partilhou, alguma experiência em comum, senão não estariam tendo esse mesmo sonho. Qual o interesse em comum que vocês têm? Por exemplo, colecionam selos ou conchas? Acampam juntos?
Ele se iluminou com um sorriso, como se eu acertasse.
- Isso mesmo, acampamos. A gente tem sociedade num clube de caçadores, é isso.
Esse “é isso” me soou desagradavelmente falso, ao ouvido, como desculpa inventada no último minuto, mas deixei passar.
- A gente troca informações sobre armadilhas, armas de caça como a minha espingarda, lembra? A gente faz treinamento de sobrevivência no mato.
- Por conta própria? Quem treina vocês?
- Por conta própria e quem treina a gente sou eu.
- Você? - Ele perguntou se eu duvidava dele. Eu disse que não, depois de tudo que eu tinha visto.


Sábado, 7 de Maio de 1994.

Deixei meu telefone e endereço - e o pior foi ter deixado o telefone - com Fernando, para ver se ele me ligava para passar detalhes que pudessem ter escapado dele àquela hora e que ele fosse lembrando com o correr dos dias, entre as sessões. Ele realmente me ligou, mas não foi para passar detalhes, foi para me convidar para uma espera no Horto de São Vicente. Disse que viria me buscar, como quem não aceita um “não” como resposta. Levou um bom tempo, mas acabou me convencendo. Achei que ele tentava através do seu cotidiano, me fornecer mais pistas sobre o que lhe estava acontecendo.
Não eram cinco horas quando chegamos ao Horto. Subimos uma trilha, por entre pequenas corredeiras, que começavam além do alambrado da estação da Sabesp, no alto do morro. Dali se avistava uma boa panorâmica de São Vicente, Praia Grande, o Xixová-Japuí e arredores. Também se podia ver dali a pedreira, vergonha absurda num parque como este de Votoruá que se diz ecológico, corroendo a montanha. Fernando subia na frente, carregando a enorme caixa de violão na mão esquerda. Atravessamos a mata, subindo por pedras limosas, forradas de musgos que curtiam a sombra constante das árvores mais em cima. A partir dali, uma lagoa enorme, que se diz ter sido construída como uma represa, no final do século passado. A lagoa se achava entupida de alfaces d’água, plantas com propriedades de absorver a poluição, como aguapés. Num caminho de mato depois de passada a lagoa, ele armou uma trempe. De vez em quando, olhava enviesado para mim daquele jeito estranho. Precisei ficar duas horas na mata escura, para descobrir que a presa que ele queria ele já tinha capturado por telefone. Tive certeza disso quando ele se ergueu no meio da escuridão e me disse que eu ficasse quieta e não me mexesse.
- Eu não vou te fazer mal nenhum.
O medo me paralisou. Eu já tinha quase passado por isso uma vez, só que graças a Deus, apareceu gente na hora. O desgraçado sumiu, com medo de ser linchado. Eu estava a ponto de vivenciar tudo aquilo de novo. O menino deixou a arma aonde estava, a fim de mostrar boa intenção. Ele encostou o corpo contra o meu e ficou dez minutos, cada vez mais ofegante, até que uma série de trancos, como um código Morse, pôs fim à experiência.
- Viu? Não doeu. Não machucou. Não conta para minha mãe, porque senão eu acabo apanhando.
Senti vontade de atirar nele com aquela espingarda, mas me limitei a dizer - na maior fleuma - que eu mais acreditava que ele batesse na mãe dele do que o contrário. E ele baixou os olhos.
- Preciso ao menos anotar no seu prontuário que você se comporta quase todo o tempo como um animal, não sei... um cachorro. Isso. Um cachorro.
Ele quase tombou, não sei de cansaço ou de surpresa.
- Um cachorro!?
- Isso mesmo, um cachorro. Meu trabalho vai ser descobrir a partir de que você criou essa coisa rançosa que você guarda aí embaixo das camisas de marca que você compra para usar quando acaba de se livrar da graxa.
Terminou me chamando para umas compras. Não sei porque fui junto, acho que foi só para me aborrecer e ter de tirar Fernando de dentro da Fiescot ou da Captain Gull. Só para vê-lo enchendo o banco de trás da caminhonete com o mínimo de um ser humano precisa para sobreviver nestes tempos bicudos de Ação da Cidadania Contra a Fome e a Miséria e Pela Vida: requeijão, um caixote de leite longa vida Parmalat, um de iogurte, dois pares de tênis Nike que eram simplesmente o salário de três meses de um trabalhador, dois compact-discs do Sepultura, um do Living Colour e um maxi-single do Rage Against The Machine.


Domingo, 8 de Maio de 1994.

Faltavam cinco minutos para as três da manhã quando o telefone tocou. O meu marido foi quem atendeu, num pulo apavorado. Acordei totalmente com Paulo perguntando o que aquela voz de homem chorão poderia estar querendo com a mulher dele àquelas horas. Pedi apressada o fone, e Paulo o passou para mim, fumegando.
- É um tal de Fernando. Manda ele acordar a avó dele a uma hora dessas!
Mal reconheci a voz de Fernando, em meio a tanto soluço e gritaria, voz terrivelmente desafinada pelo choro. Uivando do outro lado, repetindo sem parar que tinha acabado de ter o tal sonho e que não conseguia, por mais que tentasse, relaxar, dormir, já fazia muito tempo. Fui atender o telefone na sala, porque Paulo estava a ponto de me bater, são realmente constrangedoras essas situações. Ele disse que não entendia o porquê de estar sendo deixado sozinho e eu disse que queria ligar para o número na Praia Grande, conversar com Helena, mas ele não quis por nada deste mundo, me passar o número, número que Helena já deveria ter deixado comigo já que passava lá tanto tempo da semana. Ele queria mesmo que eu fosse até lá, disse que vinha me buscar e trazer, mas que eu tinha de ir. Eu falei que ele já tinha passado da idade de ser adotado, pelo menos para mim e desliguei o telefone. Achei que ele tinha se acalmado, porque não tornou a ligar. Pelo menos, era isso o que eu esperava. Tenho me sentido meio fraca ultimamente, o astral daqui também não tem andado bom, a atmosfera não tem sido muito para frente.


Segunda-feira, 9 de Maio de 1994.

Dia de depoimentos. Os garotos vieram à sessão e todos referiram situação igual à do Mestre. João Paulo falou que isso não vinha de ontem, já havia mais de um mês que acontecia serem deixados sozinhos em casa, à noite, por longos períodos. Eu declarei que só conhecia os responsáveis por dois dos meninos. Que pela gravidade do problema, os outros já deveriam ter se manifestado, e citei o caso de Felipe na varanda de seu apartamento. Quis saber ainda porque o pai de Marinho saiu tão rápido da minha sala. Marinho disse que ele andava ocupado. Perguntei o que pode ser mais importante para ele do que o bem-estar de seu próprio filho. Marinho tornou-se indócil e disse que eu estava criticando o pai dele. Rebati, dizendo que era exatamente isso o que eu estava fazendo. E que toda a situação era muito esquisita para mim.
Lopes apareceu à noitinha no consultório. Se o Mahatma Gandhi aparecesse, eu não teria estranhado tanto. Ele veio com história de psicopatia originada por causa dos barulhos no hall do nosso prédio à noite. Que ouvia agora um arrastar de chaves, foi o que me disse. Expus o que eu achava, que ele estava trabalhando demais no caso dos tais assassinatos e ele retrucou seco que os sons eram reais e que era questão de tempo, até que ele pegasse o autor dos ruídos noturnos no prédio. A recepcionista interrompeu nossa conversa.
- O Sr. Aita está aí fora.
Disse que ele entrasse e quando ele viu quem estava na minha sala, ficou transparente. Olhei para Lopes e nem no rosto dele eu podia ver o menor traço de cor. Apresentei um ao outro, já achando que eu não precisava. A surpresa era a de quem já se conhece.
- Não vão apertar as mãos?
Foi de Lopes a iniciativa maquinal de estender a mão. Fernando apertou a mão dele e deve tê-la sentido fraca ao contato, sem energia, porque foi bem espontâneo:
- Aperta isso aí que nem homem.
E pareceu surpreso consigo mesmo, ao dizer aquilo. Como se tivesse deixado escapar algo importante. Lopes, que aparentava não saber aonde enfiar a cara, gemeu duas desculpas e saiu, fechando a porta com estrondo atrás de si. Fernando caiu em si e aí ficou parecendo um tucano esquecido vivo dentro de um frigorífico, quando lhe perguntei de onde conhecia meu vizinho. Respondeu de improviso.
- Ele conserta a viatura dele lá na minha oficina.
- Vocês são amigos ou só conhecidos?
- Conhecidos, só. Não vou muito com a lata dele.
Vi as pupilas dele contraindo e dilatando. Movimento rápido de pupilas indica indecisão sobre o que dizer. Falta de espontaneidade que pode indicar mentira.
- Costuma pedir energia a pessoas com quem não vai com a cara, Fernando?
Ele se ergueu, como fazia para mostrar revolta.
- Como assim, energia? Que tu quer dizer com isso?
- O que você disse quando apertou a mão dele?
Caiu em si de novo e repetiu a frase de má vontade. Questionei se ele fazia uma idéia, mínima que fosse, do porquê de seus parentes o deixarem sozinho durante a noite. Negou com a cabeça. Não sei como não quebra o pescoço nessas negativas.